Lugar de

Num mundo em que a elas não foi dado o espaço de exposição e do trabalho, nem o mesmo salário, é através de homens que lemos sobre mulheres

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S. Paulo

13 de julho de 2019 | 02h00

Na sala de roteiro de uma série, o ideal é ter mulheres, negros e gays. Hoje, torna-se exigência de algumas produtoras. E cabelos grisalhos, por favor, o que nem é exigência, mas necessidade. Nada contra a juventude. Repertório é tudo. 

Na sala de Família Soprano, tinha até um ex-mafioso que sugeriu Tony matar com as mãos um dedo-duro no episódio mais premiado, que a HBO tentou vetar, em cena que mudou a TV mundial e fincou complexidade, camadas, a bom protagonistas (Don Draper, Walter White, Dexter, McNulty). É inconcebível um herói sem defeitos, fraquezas, loucura. 

Game of Thrones, a série tão falada, tinha personagens femininas marcantes que conduziam a trama, duas rainhas, duas princesas, duas além do seu tempo, todas empoderadas, complexas, influentes: Daenerys, Sansa, Cersei, Arya, Brienne, Catelyn Stark, Margaery Tyrel, Ygritte. Conduziram exércitos, declararam guerras, ensinaram, lutaram de igual pra igual.

Nas primeiras temporadas, tinha uma roteirista de primeira no time, Vanessa Taylor, com o que ganhou dois Emmy (em 2013 e 2014). A partir da quarta temporada, não tinha mais mulheres na sala, e somente uma mulher dirigiu quatro episódios da série de oito temporadas, Michelle MacLaren (em 2013 e 2014). 

Muitos sempre se queixaram de que a série precisava de escritores melhores. A partir da quarta temporada, só homens escreveram a trama pontuada por personagens femininas. Foi então que elas se perderam, e sumiu a sutileza: Cersei e Daenerys viraram duas tiranas vingativas, Sansa, uma sonsa, Arya parecia um menino. Brienne, um homem. 

E depois de oito temporadas, o trono foi para um... rapaz. De acordo com o Reddit, os showrunners de Game of Thrones lideram os resultados de pesquisa do Google para “escritores ruins”.

Como me deu trabalho, na sala de roteiro da cerimônia da abertura Paralímpica, pedir para evitarem os clichês “superação” e “realização de um sonho”. 

Certo dia, desabafei: “Olha aqui, não superei meu acidente coisa nenhuma, ninguém supera, nem superará, é uma droga estar numa cadeira de rodas, ser amputado, cego, nós temos que nos adaptar, escolher um caminho, viver. É a vida, pô!”. 

Por sorte, um artista ultrassensível, meu colega Vick Muniz, entendeu no ato meu desabafo e comprou a minha briga. Sem um deficiente naquela sala, seria uma cerimônia lambuzada na pieguice e frases feitas. 

Como deficiente, defendo com veemência o lugar de fala. Mas apenas uma mulher pode escrever sobre uma mulher?

Pense na mitologia grega e nos arquétipos de Afrodite, Electra, Atena, Artemis, Hera, a deusa das deusas. Pense na Bíblia Sagrada, em Madalena e Maria. Foi um homem, Sófocles, quem escreveu sobre Jocasta, e outro homem, Eurípedes, sobre Medeia. A tragédia, o infortúnio e a miséria humana recaíram sobre a neta do Sol, a favorita das trevas, e sobre a mãe de Édipo.

Foi Shakespeare quem esculpiu personagens elaboradas como a manipuladora Lady Macbeth, a arrojada e sonhadora, disfarçada de inocente, Miranda, a romântica, ousada que rompe tabus, Julieta, a deprimida e enigmática Ofélia, todas inconformadas em luta contra o sistema patriarcal, em busca do espaço decisório, questionando o papel social da mulher, revoltando-se até com a morte. 

Está aí o problema: são personagens à sombra dos homens. São datados. De uma era que não tem mais volta.

Penso na mulher da bossa nova, uma “coisa” linda que vem e que passa, apenas para o encantamento dos olhos masculinos, com o corpo dourado, num doce balanço a caminho do mar, que surge para realçar a tristeza na solidão, cuja beleza não é do poeta. Coisa?

Mas penso em Cartola e na música em homenagem à filha, O Mundo É um Moinho, que não sabe o rumo de sonhos tão mesquinhos a tomar, que serão triturados por um moinho. Vai reduzir as ilusões a pó. 

Penso em Diadorim, que precisa se fingir homem para se vingar. Penso em Orlando, o herói de uma autora, Virginia Woolf, que um dia acorda mulher. Guimarães Rosa escreveu sobre uma mulher fantasiada de homem. Virginia fez o oposto. Existe acerto e erro na arte?

Penso na complexidade das personagens femininas de Chico Buarque e Caetano Veloso, na aflição, solidão e dor: “Com alguns homens foi feliz, com outros foi mulher” (Tigresa). Um homem que melhor escreveu sobre uma mulher?

Num papo de bar, fui corrigido por Júlia, que disse: “Soa um pouco machista a oposição entre ser feliz e ser mulher”. Para mim, a frase era óbvia: com alguns homens foi realmente completa e feliz, com outros cumpriu apenas seu papel social, como Bovary, Ofélia, Maria, Atena; irrelevante o que sentia. 

Mas, para Júlia, era o oposto. Como mulher é que ela foi completa, sentiu-se amada. Para ela, ‘foi mulher’ significa que teve uma relação estritamente sexual, o equivalente a ‘foi viril’ para um homem. Foi dona de si, e não de outro. Sempre entendi o contrário.

Madame Bovary era Flaubert. Capitu, olhos de ressaca, e Sofia, morangos adúlteros, eram Machado de Assis. E o que falar das mulheres de Chekhov, Nabokov, Bergman e Almodóvar?

Quando se escreve sobre uma mulher, na canção, literatura, poesia, teatro e cinema, o autor homem tem que se sentir uma, aliado à observação e ouvidos atentos, memória, sentidos e experiência pessoal. 

Mas, é claro, uma mulher é quem deve escrever sobre uma. Num mundo em que a elas não foi dado o espaço de exposição e do trabalho (compare o número de escritoras, cineastas, dramaturgas com o dos equivalentes masculinos), nem o mesmo salário, é através de homens que lemos sobre mulheres. O que vai mudar.

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