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Lúcio Mauro

Outro dia, numa entrevista, me perguntaram com que comediante já falecido eu gostaria de ter trabalhado. Golias pulou na minha cabeça imediatamente. Gênio, esse era um cara que eu gostaria de ter pelo menos conhecido e trocado uma ideia. Costinha foi outro. Imagina um chopp com o Costinha. Imagina qualquer coisa com o Costinha. Rogério Cardoso é um que eu tenho tanta pena de não ter conhecido. Acho que fomos feitos um pro outro. Eu ia rir tanto dele, ia gostar tanto de saber das histórias todas que ele tinha pra contar.

FÁBIO PORCHAT, fabio.porchat@estadao.com

20 Outubro 2013 | 03h21

Outro dia conheci o Moacyr Franco sem querer, saindo do restaurante La Fiorentina no Rio de Janeiro e me emocionei. Como foi bom ter dado um abraço nele e poder dizer cara a cara como sou seu fã. Pude fazer isso inúmeras vezes com Chico, ainda bem, e ouvi-lo falar sobre tudo e todos. Esse ano me encontrei com o Carlos Alberto de Nóbrega e foi outro momento na minha vida. Com Paulo Silvino, Agildo Ribeiro e Orlando Drumond, tive a honra de ter dividido a cena. Jorge Dória eu vi no teatro fazendo Molière, graças a Deus. Também posso bater no peito e dizer que o Jô Soares mudou a minha vida. Foi por causa da sua boa vontade que eu descobri o que eu queria fazer pra sempre.

Mas hoje eu queria falar de uma pessoa da qual eu sou especialmente fã. O Lúcio Mauro pai. Que ator. O que me impressiona nele, acima de tudo, são as pausas. Os tempos. Se comédia é timing, timing é Lúcio Mauro. Ele consegue transformar a cena com um arregalar de olhos, com uma inversão de sorriso. Da Júlia (meu personagem favorito) era quem fazia Alberto Roberto brilhar. A gente ri da cara dele, só de olhar. A seriedade de seus personagens faz com que eles sejam muito verdadeiros. Fernandinho e Ofélia eram um primor. A troca de intenção do momento em que ele está rindo da piada do amigo pra quando ele percebe que a piada é com a sua própria mulher tem que ser estudada pela NASA. É um tempo inimitável. Ter o domínio disso é algo que está dentro da pessoa. É isso que faz a piada ser engraçada ou não. O tempo. Quando você ri do Leandro Hassum, do Lúcio Mauro Filho ou do Marcelo Médici, você está rindo do tempo que eles "escolheram" pra contar aquilo. A pausa, a velocidade das palavras, o ritmo da entonação que foi empregado naquela frase.

Acho que o maior elogio que um comediante pode receber é: vocês inventam tudo aquilo ali, na hora? Claro que não. Tem um texto, meses de tentativa e erro, só que agora ficou tão natural na embocadura do comediante que parece que ele tá falando aquilo ali pela primeira vez da cabeça dele. Eu fiz um filme com o Lúcio Mauro. Foi uma cena de vinte segundos, mas foram os vinte segundos mais legais de todos, porque eu estava de frente para o Senhor do Tempo. Que te faz morrer de rir com um piscar de olhos. O cara que sabe transformar o silêncio em aplauso. Palmas eternas pra Lúcio Mauro!

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