Luciano Gatti surpreende em "SubUrbia"

No universo asfixiante da peça SubUrbia, uma esquina insalubre freqüentada por jovens de nomes como Sooze, Pony e Bee-Bee, existe um garotão loiro que equilibra-se na vida em cima de um skate e que mantém as mãos permanentemente ocupadas por fatias de pizza e latinhas de cerveja.Seu nome é Buff, personagem que poderia estar condenado a uma existência irritante caso não viesse em seu socorro um outro nome, o do ator Luciano Gatti, capaz não só de fazer de Buff um adorável bufão como também de tornar menos incômodo aos olhos do público o retrato desiludido de uma juventude cujos horizontes são demarcados por uma loja de conveniência e um contêiner de lixo. Na estréia de SubUrbia, semana passada, Gatti foi aplaudido três vezes em cena aberta, fenômeno que vem se repetindo em todas as sessões do espetáculo, em cartaz no Teatro Sesc Anchieta. A reação calorosa da platéia parece ser o aval de que o futuro do ator Luciano Gatti, de 25 anos, tem tudo para ser bem mais ensolarado do que aquele reservado aos angustiantes personagens da peça.Ajuda do elenco - ?Ele é um ator que soube captar o arquétipo do jovem de qualquer lugar do mundo. Consegue dar o tom exato que o personagem exige. Temos de ficar atentos a ele?, elogia o diretor Sérgio Ferrara, responsável pela montagem de Pobre Super-Homem e que, no momento, ensaia Ester Góes e Magali Biff para uma remontagem de Abajur Lilás, de Plínio Marcos, que volta aos palcos em março, no Festival de Teatro de Curitiba. ?Gatti poderia ter sucumbido diante do estereótipo fácil do personagem, mas fugiu disso e fez uma interpretação coerente, que não perde o tônus em uma única cena. Claro que ele tem por trás um elenco coeso, que lhe permite realizar esse vôo.?Formado em Cinema pela Faap e com uma única participação em longa-metragem, no pouco visto e mal-falado De Cara Limpa, exibido na Mostra Internacional de Cinema do ano passado, Luciano Gatti vem, pacientemente, rascunhando seu nome no teatro paulista. Estreou nos palcos aos 15 anos, em uma montagem amadora de Na Aurora da Minha Vida, de Naum Alves de Souza, encenada no auditório do Colégio Rio Branco. A peça ficou 15 dias em cartaz e, antes que alguém se apresse a desmerecer esse início de carreira, Gatti avisa: ?Os ingressos eram cobrados. E tínhamos público?.Quando saiu do Rio Branco, aos 18 anos, era, não sem motivo, o galãzinho das colegiais. Seu currículo, até aquele momento, já incluía atuações em O Diário de Anne Frank, uma adaptação teatral de Quanto Mais Quente Melhor (sim, ele usou seios postiços na adolescência) , A Escada, O Céu Vai Ter de Esperar e, claro, Pluft, O Fantasminha, o texto de Maria Clara Machado que assombra o passado de dez entre dez atores brasileiros.O primeiro trabalho como ator, desta vez para valer, com carteira assinada e 13.º salário, veio em 96, no musical infantil A Missão, que durante dois anos percorreu centenas de escolas da cidade. ?A partir daí eu percebi que o teatro tinha se tornado realmente sério, e que era possível viver com o trabalho de ator?, diz Gatti. ?Comecei a fazer cursos, freqüentei por seis meses as oficinas de ator da Rede Globo e fui convidado para episódios de Malhação e Sandy & Júnior.?Oito personagens - Apesar dos cursos, Luciano Gatti admite que é um profissional que aprendeu fazendo. Antes de chegar ao elenco de SubUrbia, pôde ser visto em Um Clarão nas Estrelas, de Vladimir Capela, Pirata na Linha, de Aimar Labaki, prêmio APCA de melhor espetáculo juvenil do ano passado, O Rei dos Ventos, de Paulo Faria e Luís Miranda, e O Canto dos Cisnes, de William Pereira.Mas foi só com Um Certo Faroeste Caboclo, musical baseado em canção de Renato Russo, que Gatti passou a excursionar por vários Estados do Brasil e percebeu que estava pronto para desafios maiores. O musical ficou dois anos em cartaz e Gatti se desdobrava em oito personagens. ?Foi lá que conheci parte do elenco que hoje está em SubUrbia. Aí surgiu o convite para a montagem.?SubUrbia é o primeiro texto teatral do autor americano Eric Bogosian montado no Brasil. Bogosian admite que seus personagens, jovens de uma pequena cidade americana sem qualquer ambição, além de escapar dali, são nitidamente inspirados em As Três Irmãs, de Chekhov.?Buff é um garoto obsessivo. É o que mais fala, o que mais come, o que mais se esforça para chamar a atenção. Faz tudo isso para preencher o grande vazio que é a vida dele?, diz o ator. ?Minha maior dificuldade foi torná-lo um personagem cativante, mas espontâneo. Tive até de voltar a andar de skate. No terceiro dia do espetáculo, caí de puro nervosismo.?O esforço não parece ter sido vão. ?Ele é o melhor ator da peça?, diz o diretor Dionísio Netto, que está trabalhando com Helena Ignez e Luciana Vendramini na montagem de Antiga, com estréia prevista para maio. ?É sempre bom ver um talento jovem no palco. Embora a montagem não passe de um cover, ele soube misturar bem violência urbana com comicidade.?No momento, a figura de Gatti não está limitada ao palco do Sesc. Ele pode ser visto na campanha dos refrigerantes Sprite, veiculada na televisão e que em breve deve chegar aos outdoors. Vestindo roupas espalhafatosas, uma imensa peruca blackpower e com a pele pintada de negro, Gatti, na televisão, por enquanto só está sendo reconhecido pela própria mãe. Por enquanto.

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