Lucia Santaella demonstra a urgência de pensarmos o mundo com base em novas tecnologias

Obra da pesquisadora aborda o fenômeno da ubiquidade (ocupar espaços distintos simultaneamente) em suas faces cultural e educacional

Rodrigo Petronio , Especial para O Estado de S. Paulo

07 de março de 2014 | 19h45

Em sociedades cada vez mais ligadas por redes de comunicação, as ciências que estudam essas sociedades se tornam também elas cada vez mais complexas. Por isso, para definir o conjunto de teorias que analisam as formas de comunicação humana e não humana, criou-se a expressão ecologia das mídias, que engloba diversos campos de saber: semiótica, teoria dos sistemas, cibernética, tecnologias da informação, teoria cognitiva e estudos em inteligência coletiva. Ela é necessariamente interdisciplinar.

Nesse horizonte se insere a obra de Lucia Santaella, pesquisadora dessa área, sobre a qual é também autora de diversas obras. A mais recente, A Comunicação Ubíqua: Repercussões na Cultura e na Educação, aborda justamente o fenômeno da ubiquidade (ocupar espaços distintos simultaneamente), em suas faces cultural e educacional.

A obra investiga temas como o pós-humano, as promessas da web 3.0, as interfaces entre a cidade e o corpo. Abre uma reflexão sobre o conceito de privacidade e sua ambivalência na era digital. Enumera as principais mudanças políticas e subjetivas produzidas pelas redes digitais.

Em outros capítulos, trata do surgimento das chamadas hipermídias e transmídias. Lança luzes sobre a função pedagógica dos games. Ocupa-se especialmente das possibilidades abertas pelo fenômeno da ubiquidade.

Em linhas gerais, a tese central de Santaella é a seguinte: o estudo das mídias pressupõe uma renovação da ontologia (estudo do ser). Esta deixa de ser entendida como metafísica, ou seja, como uma análise da substância da realidade. Passa a ser o estudo dos modos de conexão de diversas realidades.

Relações, associações, mediadores, conexões. Nesse campo semântico, Santaella propõe a criação de uma "ontologia política das redes", tal como a proposta pelo sociólogo francês Bruno Latour. E também dialoga com a sua teoria do ator-rede (TAR), uma das mais instigantes do pensamento contemporâneo.

Na obra, Santaella desfaz as fronteiras entre mente e corpo. Ressalta como as relações intersubjetivas mudaram depois do advento da internet. Com base em Foucault, Deleuze e Guattari, evidencia como novos dispositivos de saber-poder surgiram com o ciberespaço.

Em outro capítulo, Santaella define o quarto regime da imagem. E o faz com três modelos da imagem fotográfica, definidos pelo filósofo Vilém Flusser. Trata-se de uma reflexão nuclear para todos que lidam com arte e com suas interfaces com novos meios. Os demais capítulos se alinham ao tema da ubiquidade, tanto em sua acepção cultural quanto pedagógica.

Em linhas gerais, a obra de Santaella demonstra a urgência de pensarmos o mundo com base em novas tecnologias. Não é apenas a análise de novas tecnologias com modelos clássicos. O importante é compreender que a vida de novas formas produz novas formas de vida. E essas novas formas de vida demandam novos modelos conceituais.

Por outro lado, a ubiquidade deixa de ser um patrimônio de elites financeiras e intelectuais do planeta. Torna-se uma experiência cotidiana. É preciso realizar aquela decisiva transgressão das máquinas, profetizada por Flusser. Ou seja, desviá-las de sua função inicial. Essa é a única maneira de reverter a alienação do ser humano produzida pelas máquinas. Usando-as em benefício de nossa liberdade. E em nome da emancipação humana.

RODRIGO PETRONIO É ESCRITOR E FILÓSOFO E PROFESSOR DA FAAP

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