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Lúcia Murat vai aos anos de chumbo com ficção

'A Memória Que Me Contam', já em cartaz, vai para o Festival de Moscou

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2013 | 02h07

Presa e torturada nos porões da ditadura, Lúcia Murat deu um depoimento emocionante à Comissão da Verdade, que investiga crimes cometidos pelo aparelho repressivo do regime militar. O tema tem aparecido com frequência em sua obra de diretora. O horror que viveu no passado é uma fonte de inspiração. Certas histórias precisam ser contadas para não ser esquecidas. Mas, como Lúcia diz, sua vida e obra não é só isso - "Seria me reduzir, como cidadã e artista".

A Memória Que Me Contam, que estreou na sexta, tem a marca da autora, mas, como outros de seus filmes, está longe de ser uma unanimidade. Nelson Rodrigues sentenciava que a unanimidade é burra. A tentativa de agradar ao gosto médio produz, na maioria das vezes, somente a mediocridade. A Memória já passou por festivais nacionais - Brasília e Tiradentes - e vai agora para Moscou, selecionado para o evento que ocorre neste mês. Foi um filme de gestação longa, embora feito de forma rápida.

Lúcia queria fazer um filme inspirado na figura de Vera Sílvia Magalhães. As duas estudaram no mesmo colégio, no Rio. Vera já tinha uma militância quando a jovem Lúcia, aos 17 anos, começou a se interessar por política. As brutais torturas produziram sequelas que levaram Vera a sucessivas hospitalizações e à morte, em 2007. O filme sobre ela há muito estava na cabeça de Lúcia, e sempre como ficção. Por mais que a ficção tenha compromisso com a verdade, ela dá mais liberdade que o documentário a quem cria.

Vera era tudo para Lúcia. Encarnava a coragem, a resistência. A sensibilidade, mais o gesto. Na ficção de Lúcia Murat, Vera, transformada em 'Ana', está morrendo num hospital. O filme começou a nascer assim - os amigos nos corredores, discutem seu vínculo com Ana, lembram como amaram a revolução, como quiseram mudar o mundo. Refletem sobre suas escolhas. Lúcia já pensava no filme, e o tinha na cabeça quando o canadense Denys Arcand fez As Invasões Bárbaras, em 2003, dando prosseguimento ao seu O Declínio do Império Americano, de 1986. Diante do filme de Arcand, Lúcia pensou - "Putz, esse cara roubou minha ideia."

Mas não desistiu de fazer a sua invasão bárbara. Nela, Vera Sílvia Magalhães aparece jovem e bela no imaginário dos amigos, interpretada por Simone Spoladore. "A personagem se impôs desse jeito. Não conseguia vê-la naquela cama." A própria Lúcia se projeta na figura da cineasta interpretada por Irene Ravache. É seu alter ego, e desdobra a resistente que a própria Irene criou em Que Bom Te Ver Viva. Graças a um acordo de coprodução, Franco Nero, o Django, está no elenco. Não faz muita coisa. Um dos aspectos polêmicos é a relação de Irene com o filho gay, que sofre com a situação de Ana. "Mas ela não é sua mãe", lhe diz o companheiro.

Existe um diálogo em A Memória - a mãe atira na cara do filho que a sua liberdade de escolha, hoje, não deixa de ser produto da luta dela - que se aproxima de certas conversas entre a mãe ex-guerrilheira e a filha careta (mas lésbica assumida e 'grávida' no ventre da companheira) em Aos Nossos Filhos, peça de Laura Castro interpretada pela autora e por Maria de Medeiros, no Sesc Santana. A peça, não propriamente a montagem, é melhor que o filme. A plateia ri quando a ex-guerrilheira de Lúcia minimiza o sexo e diz que 'dava', nos anos 1960, por caridade. Há uma caliente cena dos dois rapazes, mas parece despropositada no contexto da história de A Memória. Lúcia sente a ligação. "Isso é preconceito. Vocês (e ela inclui o repórter) só reclamam porque são dois homens em cena. Se fossem mulheres, não iam questionar nada." É bom ver Lúcia viva e polemizando, mas seu cinema, tão apaixonado, anda precisando de certo distanciamento, para ser mais efetivo.

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