Lucas Santtana e o caminho dos mestres

Melhor compositor de sua geração, ele lança quinto disco, O Deus Que Devasta Mas Também Cura

O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2012 | 03h10

Desde 2000, quando deu as caras de vez na cena da música popular, com o disco Eletro Ben Dodô, o baiano-carioca Lucas Santtana iniciou um trabalho de notável consistência e ao mesmo tempo de capacidade de diversão e delírio. É talvez o músico de maior estofo intelectual e de formação mais diversificada de sua geração no Brasil.

É multi-instrumentista (toca guitarra, violão, gadgets eletrônicos, flauta, sax, baixo e cavaco), mas talvez o que o diferencie seja sua habilidade nas técnicas de gravação em estúdio, o artesanato com os samples, os diálogos transversais de gerações (dos tropicalistas a Zeca Pagodinho, de Marley a Luiz Gonzaga, do samba ao raggamuffin' e dancehall e ao kuduro africano). Não é um grande cantor, mas não parece que alguma vez tenha pretendido sê-lo, e isso não faz diferença na música que cria - uma arquitetura sonora na qual a voz preenche espaços, aglutina, projeta.

O lançamento de O Deus Que Devasta Mas Também Cura, quinto disco do artista, ativa um curioso exercício de circularidade. Lucas parece atar pontas de insights que a música teve nas últimas décadas. E também, como Manu Chao, refaz continuamente o próprio trabalho - a base de uma música antiga, como Tijolo a Tijolo (2006) serve de fundação para música nova, Dia de Furar Onda no Mar.

Uma separação amorosa parece que é o mote inicial do disco, mas é difícil dizer quais entre os grandes discos da MPB não partem do mesmo tema ("Devolva o Neruda que você me tomou", lembra?). "O amor, no começo, é um alvoroço/Qualquer momento é um colosso", canta Lucas, em clima de exagero de dor de cotovelo, em É Sempre Bom Se Lembrar, em clima de extremismo orquestral.

Mas há outras musas concretas, como as cidades de Belém e São Paulo, homenageadas pelo artista. Ela É Belém vem turbinada por informações turísticas (Lucas não conhecia a cidade quando fez a música) e musicais - tem pegada e batida dos soundsystems jamaicanos, como se a gente a estivesse ouvindo na rua, um tipo de transe elétrico à moda do Konono n.º 1.

O reggae volta a animar a festa de Lucas em Se Pá Ska SP, uma canção em homenagem a São Paulo (quem sabe um refúgio para quem já não aguenta mais ouvir Sampa e Ronda nos aniversários da cidade?). "De braços abertos essa mãe ossuda/ te acolhe no teu colo/ Mas ele machuca".

Há somente uma faixa instrumental no disco, Vamos Andar pela Cidade, movida pelo trompete de Guizado. Parece uma cruza de Consolação, de Belchior ("Vamos andar pelas ruas de São Paulo") com recuerdos jovem-vanguardistas como O Homem do Braço de Ferro, dos Incríveis.

A regravação de Músico, canção que Tom Zé e os Paralamas fizeram para o disco experimental Severino (1994, definido por Herbert Vianna como um tipo de suicídio comercial), é sábia. "Ligue-se o Éden/ Sonho e maçã/ Serpentes eternas/ Sobem por nossas pernas". A cantora Céu faz o vocal de apoio, e uma guitarrinha da escola baiana se defronta com sintetizadores e sample de Beethoven.

Outra cover do disco é This Is Not the Fire, da banda gringa My Tiger My Timing, de pop new wave de Londres. Lucas a rebatizou como O Paladino e Seu Cavalo Altar, e turbina a canção com uma percussão mais tropicalizada (o original é fofinho, mas é só um insight, é meio inócuo).

Dia de Furar Onda no Mar tem participação do filho de Lucas, Josué, de 9 anos, uma afetividade sanguínea presente no melhor disco nacional de 2011, Lira, de Lirinha (e em trabalhos de Fernanda Abreu, Caetano Veloso, entre outros). Lucas Santtana demonstra, no disco, que recomeçar nunca é partir do zero.

Crítica: Jotabê Medeiros

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