Loyola defende o romance

Personagem de capa do número 11 dos Cadernos de Literatura publicados pelo Instituto Moreira Salles, que chega hoje às livrarias, o escritor e cronista do Estado, Ignácio de Loyola Brandão conserva, em plena maturidade literária, o mesmo espanto, o mesmo desassossego do jovem escritor que, em pleno regime militar, só conseguiu publicar seu romance Zero na Itália.Feliz com as homenagens que cercam o lançamento dessa edição dos Cadernos, Loyola ainda assim não abandona os rascunhos do novo romance que está escrevendo, que tem o título provisório de O Anônimo. ?Sempre tenho um projeto em andamento?, diz. ?Sem ele, sou flor murcha à beira da estrada, viro um cara chato, um pé no saco, deprimido.?Na entrevista que se segue, Loyola exibe seu assombro, mas também sua disponibilidade diante dos novos tempos que se abrem para a literatura ? hoje levada a conviver com a Internet, os meios virtuais e uma nova velocidade. ?Acredito, com fé, que o romance vai continuar existindo?, diz.Estado ? Parte importante da crítica se dedica, hoje, a investigar os traços genealógicos da criação literária. Observando sua própria obra, que dívidas, que influências, que rastros você mesmo encontra?Ignácio Loyola Brandão ? Difícil de responder. Freqüentemente pedem, a nós criadores, para detectar esses traços. Mas nós somos apenas criadores, não somos estudiosos. Fazemos. Não me debruço sobre meus escritos, em busca de escolas, influências, inspirações. Nem saberia avaliá-las. O que posso é fornecer as pistas e os teóricos ? se estiverem interessados, hoje ou depois de minha morte, se acaso minha obra não morrer comigo, como tem acontecido com tantos grandes autores brasileiros ? os teóricos que façam o trabalho, que é o trabalho deles, arqueólogos que são da literatura. Posso dizer que já quis escrever como Faulkner, depois como Carson McCullers, em seguida Graciliano Ramos e Hemingway ? esses traços talvez sejam os mais evidentes. E como John dos Passos (este certamente permeia livros como Bebel e parte da estrutura do Zero), Kerouac, Cesare Pavese, Sartre, Camus, Updike. Algumas coisas minhas guardam laivos de Murilo Rubião, outras de Kafka. Mas onde coloco Raymond Chandler? E Daniel Defoe? E Daphne du Maurier? E a inveja que sempre tive do estilo de Clarice Lispector acabou aparecendo em algum lugar? E o fantástico dos contos de fada, onde se situa? Quando descubro algum deles imiscuído nas minhas coisas, dou um abraço, agradeço e digo: fiquem por aí, quietinhos!Que espaço, a seu ver, sua obra ocupa na literatura brasileira contemporânea? Todo escritor escreve ?contra? alguma coisa ? contra uma tradição, uma crença, uma tendência literária. ?Contra? quem ou ?contra? que você escreve? E de quem se sente mais perto?Gostaria de saber que lugar é esse, juro! Que espaço é esse que se desenha à minha volta. Algum, é! Daqueles ?engajados?, irados dos anos 60 e 70, quantos restam? E estou aí. Portanto, é a certeza de que meu projeto não era temporal, nem circunstancial. Era um projeto ligado ao Brasil e isso me alegra, porque me identifica com meu país, minhas coisas, minhas raízes. Contra quem escrevo? Contra os canalhas que existem aos montes em nossa elite. Contra quem é contra a vida! Contra o quê? Contra meus medos, minha insegurança, minhas neuroses, contra a mania que tenho de rolar os problemas em lugar de encará-los, contra minha falta de audácia, o medo do futuro, do não amor. Sabe de que autor eu gostaria de estar perto? Do Érico Veríssimo. De alguns livros do Jorge. Do Valêncio Xavier. Do Rosario Fusco. Da Lygia Fagundes Telles. Do João Antônio e do Antônio Torres. Do João Cabral. Adoraria estar parelho ao Nélson Rodrigues. E do Rubem, claro!Ainda observando sua obra, que tipo de movimentos nela você percebe? Constância? Oscilação? Rupturas? Observo constante oscilação. Tentativas de rupturas. Rompi com Zero, mas vacilei em Dentes ao Sol. Joguei para fora uma enorme indignação com Não Verás e explorei minha ironia e meu sarcasmo até o máximo em O Anjo do Adeus. Aliás, o Fábio Lucas (está nos Cadernos de Literatura Brasileira) fala exatamente disso, foi o único que percebeu a desconstrução que pratiquei. Boa essa palavra, não? Desconstrução. Esperei tanto para usá-la! Até hoje me pergunto que caminho é esse em que me meti com O Homem Que Odiava a Segunda-Feira. O absurdo do Brasil me machuca tanto! Quando publiquei o livro, esperei que a crítica me ajudasse a destrinchar o enigma: quem sou e por que fiz um livro assim. Um livro de que gosto, diga-se de passagem! Agora, escrevo O Anônimo. Titulo provisório. Desprezando o convencional, as regras, reaproveitando as boas lições que tive com Zero, aproveitando a maturidade que atingi. E que horror atingir a maturidade, a gente se acomoda, fica com medo de ousar. Mas tenho de entrar de novo na arena da provocação. Qual a graça de ficar na mesmice? É tão fácil ficar escrevendo sobre coisas já escritas com o mesmo jeito, estrutura e tom!Ao estilhaçar o romance, o século 20 parece ter decretado, também, seu esgotamento. Que futuro você vê para o romance?Cada vez que surge um novo meio (com o cinema, o teatro ia se acabar; com a televisão, o cinema ia se acabar; com o computador, a literatura ia se acabar; com a Internet o mundo vai se acabar), cada vez que se comemora uma nova data (1950, 2000, etc.), surgem os profetas da catástrofe. Por que é difícil escrever ficção hoje? Ninguém ainda me respondeu a essa pergunta! Não vende? Então, de que vivem os editores, cada vez mais ricos? Que futuro vejo para o romance? Não tenho a mínima idéia, não sou profeta. Agora, acredito, com fé, baseado em um instinto que não sei onde repousa, que o romance vai continuar existindo. Ao menos, continuarei escrevendo! E um mundo de gente também! Já viu o tanto de gente que escreve livros, diz que vai escrever, sonha escrever, quer publicar um livro? Empresários, senadores, socialites, gostosinhas de plantão, loiras do Tchan?A realidade de hoje, fragmentada, pulverizada, violenta, transpassada pela televisão, pela Internet, pela globalização, é favorável, ou desfavorável à literatura?Favorável. Quem tem o que escrever, quer escrever, tem tesão, paixão, loucura, vai escrever, independentemente do tipo de realidade em que está metido. Uma geração escreveu em plena ditadura. Rabelais escreveu para uma França analfabeta. E assim por diante. E exatamente essa realidade louca, insana, fragmentada é o assunto. As coisas estão mudando. Os suportes convencionais estão mudando. Não se publica livro? Passe o texto pela Internet. Colabore com o site, com o fanzine. Muitos escritores se desinteressaram em falar sobre seus livros, alegando que o escritor deve permanecer em silêncio, porque os livros falam por si. Você, ao contrário, sempre foi um escritor interessado no diálogo, na exposição pública, na visibilidade. Que vantagens e que danos isso lhe trouxe?Cada um faz o que quer. Age como acha melhor. Que ganhos tenho dialogando, falando, me expondo? Sabem que existo, minha literatura existe. Conheço gente, cidades, loucos, mulheres lindas, feias, gente festeira e gente deprimida, conheço a vida, o País, me excito, me divirto. Num país em que se dá pouca importância ao livro e à literatura, temos de gritar que existimos, que os livros estão aí, que a literatura é uma realidade. Claro, cada um faz o que quer. Mas muita gente é acomodada e, acima de tudo, arrogante. Superiores. Silenciam, esperando que a mídia corra atrás. Acreditam na balela de que o livro fala por si. Que livro? Se ninguém sabe que o livro existe, esse livro fala para quem? Um livro fechado é inútil. Um livro não lido é o mesmo que um livro não escrito. Certos autores têm a maior ânsia, querem ser lidos, mas descobrem que não são, os livros ficam nas prateleiras. Autores que têm medo de serem lidos apenas por alguns críticos e professores e serem cults do meio universitário. Outro dia peguei a revista Trip. Estava lá um bando de jovens escritores, alguns publicados, outros publicando pela Internet, pelos sites. Ronaldo Bressane, Clara Averbuck, o Mano Ferrez, do Capão Redondo, o Mirisola, a Simone Campos, o Bruno Zeni, Felipe Nepomuceno. Acrescento a Luciana Pessanha que li em original e vai estourar qualquer dia. E o Chico Lopes, um cara enfurnado em Poços de Caldas. Ótimo! Precisam prestar atenção nele! Eu sentia uma falta de indignação, falta de uma geração que chegasse para derrubar a velha, porque assim é que a literatura anda.É claro que ser escolhido como personagem dos Cadernos de Literatura honra qualquer escritor. Que efeitos práticos, no entanto, esse tipo de divulgação pode trazer? Você compartilha da idéia de que, no mundo contemporâneo, os escritores se transformaram em personagens tão fascinantes quanto aqueles guardados em seus livros?Os Cadernos me emocionaram. De repente, paro e olho para mim mesmo, para o que faço. Se os Cadernos não me ajudassem, não fizessem isso, por mim, jamais pararia. Me olhei, me vi, é um espelho. Os depoimentos de amigos me tocaram. Então, eu era assim? O Torres disse que nunca me encontrou em um bar, na juventude. Eu freqüentava escondido dele? E ele conta coisas perdidas nas trajetórias que fizemos por este Brasil. Puxa, então eu era o bonito da turma? Súbito, Ignácio se viu recortado e exposto. Adorei ser personagem dos Cadernos! Efeitos práticos? Por que tudo tem de ter um efeito prático? Na minha cabeça, vejo os Cadernos como uma contribuição à literatura brasileira. Um dia, estes Cadernos serão 200, 300. Todos os autores que contam, aqueles em quem se aposta, os esquecidos, los olvidados, estarão neles. E os Cadernos serão um panorama da literatura que se fez e se faz. Prático para mim? Tem o lado da vaidade. Porque é uma delícia ser acariciado por uma publicação completa como essa. Louve-se o IMS por publicá-la! Quando se acredita tão pouco na literatura brasileira, o IMS aposta nela, investe. Agora, quanto ao escritor ser um personagem tão fascinante quanto os da ficção, confesso que vejo companheiros que adoram ser personagens. Vejo escritores de obra escassa e muita mídia. São os escritores-personagens que poderiam, por sua vez, serem personagens de outros escritores. Bom ou mau para a literatura? A literatura é coisa que funciona com vaidades, orgulhos, arrogâncias, idiossincrasias, maluquices, manias. Ela é feita por chatos e bonzinhos, por bons e maus! E se for boa literatura, o que interessa?

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