Love Story, a casa de todos os casos

Vista assim do alto, até parece uma danceteria comum. Mas não engane seu olhar. A Love Story - ou a "casa de todas as casas", como se intitula - não é mais um endereço da moda para bombar na pista ao comando de um DJ. A pista está lá. O DJ também. Mas, da freqüência ao figurino, tudo pode surpreender, principalmente alguém desavisado. Os casais que se formam podem mudar. Aquela que beijava um, mudou de idéia e beija o rapaz ao lado. No alto de um "queijinho" (pequenos palcos para ´grandes shows´), uma dupla de garotas se enrosca em abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim. Tudo isso às 5 da manhã. Definitivamente, a Love Story não é um lugar comum. Conhecida como o point onde as meninas que ganham a vida na Boca do Luxo paulistana vão depois do expediente (o que não impede que o expediente continue...), a Love Story tem atraído a atenção de alguns chiques e outros famosos, do tipo Álvaro Garnero (herdeiro do grupo Brasilinvest) ou Ronaldinho (ele, o Fenômeno). O local caiu no gosto dos modernos, gente que sai da balada eletrônica e se joga por lá para terminar a noite. Na verdade, esse povo sempre foi, mas agora pode assumir que vai. Só que não deixa de ser um olhar da zona sul sobre o submundo, semelhante ao dos playboys que compram disco do Racionais. O fato é que a freqüência de "artistas" atiça ainda mais a libido dos habitués - e há de tudo na Love Story. Tudo por um passeio de BMW Garotas e garotos de programa, gays, lésbicas, travestis, playboys, agroboys, executivos, manos unem-se em um território onde a caça é liberada e permitida. Talvez essa seja a grande diferença para qualquer clube dos Jardins ou Vila Olímpia: o objetivo é declarado - e as moças podem apresentar a conta depois de consumado o objetivo. O figurino também não é senha que se preze. São tantos umbigos, ombros, colos e coxas escapando de microblusas, microssaias e de calças recortadas e rebaixadas que é difícil dizer quem está a trabalho ou a passeio. As mulheres inundam o estabelecimento. Estão por toda parte: na pista, nas escadas, se enroscando nos mastros dos palquinhos feitos especialmente para as que dançam coreografias calientes. Tudo em busca da tão sonhada volta à bordo de uma BMW. A Love Story completa 11 anos no dia 25 de setembro. Neste tempo ocupou outro endereço, na Rua Major Sertório. Onde está, o espaço também já foi menor e não tinha alguns "diferenciais" pós-reforma, como o mezanino, onde ficam os camarotes, com vista privilegiada para a pista no primeiro andar. Na chapelaria, era famosa a pulseirinha de couro dada em garantia do objeto que ficava guardado. Tinha as palavras Love Story escritas e muita gente levava alguma bobagem para guardar - e esquecia de propósito - só para ficar com a pulseirinha. Volta e meia é fácil cruzar alguém por aí dando pinta com o acessório. O lugar abre à 1h da manhã, mas só pega fogo depois das 4h. Lá, a noitada só acaba quando amanhece. E tudo é mesmo muito fim de noite. O povo chega embriagado, está nos olhos, está no ar. Nada melhor do que bebum para virar presa fácil de um estabelecimento que vende álcool a preço de ouro. Uma cerveja (pequena) custa R$ 15. Os energéticos, R$ 27,50. E se der fome, uma porção de azeitonas é uma das poucas opções gastronômicas que a casa oferece, por R$ 22. Um toque dionísiaco pode representar a falência: uma garrafa de vinho nacional pequena é vendida por R$ 275. "É caro pra diabo! Uma garrafa de vodka custa R$ 400. É um roubo. Como a gente vai com grupo grande, sempre divide a conta. Agora eles dão desconto para nós", reclama - pasmem! - Álvaro Garnero. Se para filho de banqueiro a coisa pega, imagine para os normais. O rapaz bem-nascido faz questão de ressaltar que nunca foi sozinho ao local. Mas com seus convidados famosos - que vão do príncipe Nathanael Rothschild ao craque Ronaldinho, passando por Luana Piovani e Luiza Brunet -, Álvaro, sem querer, ajudou a aumentar a curiosidade sobre a casa. "Não tem coisa igual, mas tem de ir com um grupo. Conheci a Love Story quando era um lugar pequenininho, mas há um ano voltei a freqüentar. As pessoas fazem uma imagem horrível, mas a música é ótima e ninguém te perturba. É simples e bacana", defende Garnero. Para ir todo dia, diz ele, cansa. Mas, para uma sexta-feira, o moço garante que é uma opção animada. "Quando fui com o Ronaldo, ninguém o perturbou. Os seguranças fecharam os camarotes e ele gostou muito", conta o rapaz. "Tem gente que não acredita que o Ronaldinho veio aqui", diz Moisés Marques, o gerente, 40 anos de noite. Moisés abre as portas do paraíso - Moisés começou a trabalhar na Boca do Luxo aos 16 anos - e não parou mais. Enquanto nos clubes bacaninhas existe a figura da hostess, na Love Story o cara que libera ou não a entrada dos infelizes àquele pedaço amargo de paraíso é Moisés. E ficam os homens a gritar por ele na porta: "E aí Moisés, o Moisés está aí? Chama o Moisés". Fácil entender por que Moisés faz tanto sucesso. Homem, com cara de quem tem carteira cheia, paga R$ 50 de entrada. Mas nada é definitivo no local. Se Moisés simpatizar com o cliente, o preço cai para R$ 25. Se for ´chapa´ do segurança, entra de graça. Mulher entra sem pagar nada e ainda bebe de graça. Para os homens, não tem esse negócio de comanda, bebe agora, paga depois. Bebeu, pagou. No ato. Diante dos preços, alguém pode pensar que se trata de um novo Gallery. Sim e não. Os freqüentadores podem até ser os mesmos das épocas de pista cheia no endereço da Rua Haddock Lobo, mas trata-se de um local cercado pela nata dos estabelecimentos "eróticos" da cidade, como Coquetel, Dakar, Feitiço Night Club, Tetéa e outros. Tudo para atrair o carente notívago solitário. Vários deles, na verdade, não são solitários - apenas estão nessa condição por algumas horas. Na saída, todo cuidado é pouco - Nas boates da região, as "meninas" são intruídas a fazer a clientela gastar. Em algumas, de cada drinque - em média R$ 35 -, as garotas ficam com R$ 10. Na Love Story não há esse tipo de esquema. Os preços elevados dos comes e bebes é justificado por Moisés, o gerente, exatamente pelo grande número de freqüentadores que entra sem pagar. "A gente libera a entrada, mas precisa faturar no bar." Para saber quais são os famosos presentes na noite, não é preciso se esgueirar pelos corredores. No volume máximo, o DJ Samuca pode avisar quem está na área. Ele divide o comando da cabine com os DJs Júnior e Clésio. "O microfone é nosso diferencial. Às vezes a gente coloca uma música nova e segura a pista na voz", explica Samuca - crente de que seus gritos de "cadê os corintianos" fazem mesmo diferença para aquele público, àquela hora. "A gente faz esse pessoal famoso se sentir em casa", garante o DJ, revelando que Luana Piovani, quando foi, ficou soltinha na marola. Na saída, é melhor correr para o carro porque, da porta para fora, aí sim tudo pode acontecer, mesmo que se saia de lá com o dia clareando. "É perigoso. Outro dia ouvi até tiro do lado de fora", lembra Garnero. Bem-vindo à verdadeira São Paulo que nunca dorme. Serviço: Love Story (R. Araújo, 232, tel.: 3231 2505). Da 1h até...

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