Lourenço Mutarelli e seus cadernos libertários

Um dos mais respeitados autores do País estreia amanhã, no 'Estado', com a tira 'Ensaio Sobre a Bobeira'

Jotabê Medeiros, de O Estado de S. Paulo,

21 Janeiro 2010 | 06h00

Tiras vão revelar experimentações do artista, oriundas de notas e esboços. Foto: José Patrício/AE

 

SÃO PAULO - Um dos mais celebrados autores de obras em quadrinhos contemporâneas, no Brasil e no exterior, o paulistano Lourenço Mutarelli, de 46 anos, é o primeiro novo ‘reforço’ da página de quadrinhos do Caderno 2. Mutarelli estreia amanhã com a série Ensaio Sobre a Bobeira, uma experiência gráfica cheia de nonsense e estranhamento, um tipo de comentário visual sobre a natureza humana.

A página de quadrinhos foi reformulada para abrigar novos autores, cujo trabalho não pode ser simplesmente definido como "tira de humor" ou "tirinha". São visões arrojadas de uma nova perspectiva gráfica.

Lourenço Mutarelli é um artista múltiplo. Já lançou cinco romances, além de escrever peças de teatro e roteiros para filmes. Dele a Companhia das Letras publicou também O Natimorto e Miguel e os Demônios. Assinou a arte do filme Nina, dirigido por Heitor Dhalia, e seu romance O Cheiro do Ralo foi adaptado para o cinema, estrelado por Selton Mello.

O criador prossegue em fase ebulitiva. Em outubro, ficou entre os vencedores do prêmio Portugal Telecom com o livro A Arte de Produzir Um Efeito Sem Causa. No dia 18 de março, estará no palco no Festival de Teatro de Curitiba ao lado de Mario Bortolotto e Paulo de Tharso. Em 2011, volta definitivamente aos quadrinhos com o álbum Quando Meu Pai se Encontrou com o E.T. Fazia um Dia Quente, que será lançado pela Companhia das Letras e RT Features.

 

 

Quadrinho 'O Rei do Ponto': artista estava afastado das HQs havia cinco anos. Foto: Divulgação

 

Há quanto tempo você não fazia quadrinhos?

Faz tempo, não me lembro ao certo. Vamos ver... Tá aqui... 2005. Foi o último que desenhei, Caixa de Areia, saiu pela Devir Editora. Eu tentei parar de desenhar para reformatar o cérebro, para ver se mudava alguma coisa.

Mas nessa época você já escrevia prosa, não?

Tava escrevendo, já tinha publicado algumas coisas. Aí eu quis tentar parar de desenhar. Parei um ano e alguma coisa, nenhum rabisco, nada. Aí comecei a fazer os gráficos para o livro A Arte de Produzir Um Efeito Sem Causa. Acho que não estava mais aguentando ficar sem desenhar e comecei a criar uns gráficos. Em 2007, fiz uma viagem e comecei a usar uns cadernos de esboços Moleskine.

Quantos cadernos você já desenhou?

Tenho uns 22 cadernos. São estudos, começou com uma mistura de texto e imagem e agora passou à coisa somente visual. Tem uns estudos da nova história que estou começando, e umas coisas que estou fazendo para o Estado. Batizei de Ensaio Sobre a Bobeira, e a série chama Moças com Bifes Sobre o Rosto. São coisas assim, pin-ups, coisas nonsense. Tenho usado muito acrílico agora. E é meio nessa linha o que estou fazendo para o Estado, coisas mais experimentais.

Você consegue definir precisamente, nesses cadernos, onde há um trabalho que não tem intenção de ser prosa e outro que é só gráfico?

Aqui eu consigo uma coisa que é um meio-termo. Às vezes faço um desenho e, a partir do desenho, crio algum diálogo, algum texto, que é um processo inverso de você fazer um roteiro de quadrinhos. Você cria uma imagem e vê o que essa imagem quer dizer, complementa ela com alguma frase. A minha ideia com esses cadernos é uma experimentação total, tentar chegar a alguma coisa antes de filtrar, tanto técnica - usando material que limite um pouco o meu domínio técnico - quanto na parte criativa. E faço e viro a página e vou indo, e depois de um tempo vou olhar o que eu gerei.

O esboço tem alguma vantagem sobre a produção em série, para um álbum em quadrinhos, por exemplo?

Eu acho que é um exercício. O problema é que acabo gostando. No estágio em que estou, que é o estágio natural de qualquer pessoa que trabalha muito com desenho durante muito tempo, é você querer voltar ao espontâneo, à liberdade. E quando é um estudo, consigo chegar a isso bem, mas se eu diagramar uma página para tentar fazer essa coisa espontânea, ela não vem. Só de diagramar, só de saber que tem um propósito, isso já começa a endurecer o traço e bloquear essa liberdade criativa. Por isso que tô fazendo assim. A ideia do Ensaio Sobre a Bobeira justifica o que vier, sem muita elaboração, e tendo esse prazer de... nem sei o que quer dizer, não é pensado, não tem uma mensagem.

Você faz alguma leitura psicanalítica daquilo?

Com o tempo eu acho que algumas coisas se encaixam. Quando faço, acho que é tudo fábula, tudo ficcional, mas às vezes passam meses, um ano, e cai a ficha de alguma coisa interna.

Você foi dos quadrinhos para o cinema e para o teatro. Quando você viu O Natimorto materializado no teatro, ficou satisfeito?

O Natimorto foi um dos meus trabalhos muito febris, tinha uma ideia conceitual e fui em frente. Eu tinha um estudo sobre o tarô, que era para casar com as imagens, mas a estrutura da história foi se formando. A coisa de ver isso adaptado para o teatro, o grande prazer disso é que você tem um retorno imediato do que você fez. Mario Bortolotto (diretor da montagem) foi muito fiel ao original, não deixava os atores colocarem nem um caco, mudarem nem uma vírgula. O que estava escrito era o que era dito. Eu vi muitas vezes a peça e estar ali, misturado com a plateia, tinha uma resposta imediata a alguns diálogos, algumas brincadeiras. Esse retorno é muito interessante de se sentir.

A sua experiência como ator no cinema, em O Natimorto, parece que você não gostou muito...

Eu gostei muito de participar do projeto, de acompanhar o processo de filmagem, ver o filme pronto. Mas minha mulher tinha falado: na hora que o filme sair, você não vai estar pronto para isso. E a hora que o filme passa, de fato, você fica muito exposto, você ouve muita coisa. Não foi agradável estar ali perto quando o filme foi passado... Adoro o trabalho do Paulo Machline, que adaptou para o cinema, e que é completamente diferente do trabalho do Mario Bortolotto, são visões muito distintas de um mesmo texto, mas é muito difícil você se ver sem o olhar crítico.

O quadrinho é uma atividade muito solitária. E você fez isso durante décadas...

Durante décadas. Algumas pessoas dizem isso, e parece brincadeira, mas ou você faz quadrinhos ou você vive. Quando eu fiz O Cheiro do Ralo, e ele acabou sendo adaptado, passei a viver e a escrever de forma compulsiva. Eu tinha poucas horas e passei a viver muito. Só fazer besteira, mas esse é o lado bom. E agora tô voltando aos quadrinhos, voltando a desenhar. Tem de ter uma disciplina, tem de baixar a cabeça e desenhar, não tem jeito.

É muita pesquisa, não? Mas a literatura também envolve bastante pesquisa, não?

É diferente. Se bem que a literatura, seus jogos de palavras, suas associações de ideias vão se limitando, você precisa se reciclar, pesquisar alguma coisa que é diferente para me contaminar daquele universo.

Por que você resolveu desenhar justamente para o meio jornal?

Vou te responder sinceramente: quando comecei a desenhar, eu tentei publicar em jornal e não consegui. Não conseguia desenvolver, meu trabalho tem uma estranheza que não cabia muito. Desisti e nunca mais quis, nunca mais tive vontade. Mas o convite do Estado pesou muito, é um jornal que eu respeito e admiro. Hoje em dia eu tenho uma liberdade, construí um nome que me permite isso. E o fato de ter essa liberdade num lugar que eu respeito, e a possibilidade de trazer gente nova. O que me incomoda às vezes nas tiras, e hoje até que está mudando isso, é que havia um monopólio de alguns, e não se abre espaço para o pessoal novo. E acho que tem de haver um lugar onde os novos possam mostrar seu trabalho. Tem de vir a molecada, esse pessoal tem de vir. Quando comecei, era difícil e havia um monte de revistas em bancas. Hoje em dia não tem revista em banca, e se não houver espaço não tem como desenvolver.

E como você definiria sua tira 'Ensaio Sobre a Bobeira'?

Tem um personagem, que é o Bob, uma brincadeira com o bobo. São figuras de máscaras, e ele geralmente responde a perguntas estranhas que me ocorrem. É uma piada que está sendo contada para mim naquele momento que estou fazendo. Quando ando pela rua e me ocorre alguma eu anoto. E tem esse ensaio, uma homenagem ao Zéfiro, essas mulheres com bifes sobre o rosto, que é só para eu ser perseguido pelas feministas (risos).

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