Lourenço Diaféria, cronista das figuras anônimas de SP

Autor de 'Brás - Sotaques e Desmemórias' sofria de problemas cardíacos há um ano e morreu na terça, 16

Ubiratan Brasil, do Estado de S. Paulo,

17 de setembro de 2008 | 19h40

As crônicas de Lourenço Diaféria reuniam a rara combinação de terem um estilo ao mesmo tempo ameno e contundente. Com alta dose de lirismo e emotividade, ele retratava figuras anônimas de São Paulo, compondo um painel humano pouco conhecido da cidade. Autor de crônicas publicadas no Jornal da Tarde e Folha de S.Paulo, além de outros órgãos de imprensa, Diaféria morreu na madrugada de terça,16, em sua casa, aos 75 anos, em decorrência de problemas cardíacos. O sepultamento estava previsto para a tarde de ontem, no cemitério Getsêmani, no Morumbi.   Apesar dos problemas de saúde, Diaféria continuava em atividade. No início do ano, uma seleção de suas crônicas foi lançada pela editora Boitempo, Mesmo a Noite Sem Luar Tem Lua, um retrato do mundo político e do cotidiano paulistano dos anos 1970. Textos em que Diaféria tratou tanto de problemas prosaicos (uma cobradora de ônibus ajudar uma mãe a trocar a roupa de seu bebê) como revelou sua insatisfação com as injustiças (escreveu uma carta a um general avisando que algo cheirava mal nos porões da ditadura militar).   Entre as crônicas do livro, aliás, uma ganhou destaque, intitulada "Herói. Morto. Nós." Publicado em agosto de 1977 na Folha de S.Paulo, o texto elogiava a bravura de um sargento, Sílvio Hollenbach, que se sacrificou ao salvar uma criança, no zoológico de Brasília - ao perceber que o menino caíra em um poço repleto de ariranhas enfurecidas, o militar conseguiu resgatá-lo mas não sobreviveu às mordidas dos animais.   "No instante em que o sargento - apesar do grito de perigo e de alerta de sua mulher - salta no fosso das simpáticas ariranhas, para salvar da morte o garoto que não era seu, ele está ensinando a este país, de heróis estáticos e fundidos em metal, que todos somos responsáveis pelos espinhos que machucam o couro de todos", escreveu Diaféria, provocando, no entanto, a irritação do ministério da Justiça.   O motivo era o trecho "heróis estáticos e fundidos em metal", entendido como uma ofensa a Duque de Caxias, patrono do Exército. Enquadrado na Lei de Segurança Nacional, Diaféria foi processado e condenado a oito meses de prisão. A detenção em sua casa em setembro surpreendeu até seus colegas de redação, a ponto de, no dia seguinte, o espaço onde normalmente era publicada sua coluna na Folha sair em branco. Diaféria só foi inocentado em 1979.   "Crônicas como essa são testemunhas do nosso tempo, e o leitor sente-se mais próximo do homem, dos outros homens, enriquecido em sua consciência e emoção", escreveu Roniwalter Jatobá, responsável pela seleção de textos de Mesmo a Noite Sem Luar Tem Lua.   Cronista desde 1964, ele estreou no jornal Folha da Manhã, hoje Folha de S.Paulo. Diaféria encarava sua tarefa diária de cronista com bom humor. "Acho que jornal é como um circo", escreveu ele, no JT. "No jornal, a crônica é o intervalo do grande espetáculo. Não resolve nada. Crônica só serve para dar um tempo de o sujeito ir lá fora, comprar amendoim, tomar café, espreguiçar-se. Talvez até seja uma inutilidade. Mas estamos aqui." Nesse contexto, ele se comparava aos anões que distraem o público enquanto se monta a jaula dos leões, a próxima atração.   Contra a duração efêmera das crônicas, Diaféria produzia textos carregados de informação, espírito crítico, humanismo e emotividade, tornando-as perenes. Nascido na capital paulista no dia 28 de agosto de 1933, ele escreveu ainda para o Diário Popular (hoje Diário de S.Paulo) e Diário do Grande ABC, além das rádios Excelsior, Gazeta, Record, Bandeirantes e TV Globo.   Sua vasta obra de cronista espalhou-se também por diversos livros, como O Imitador de Gato, Brás - Sotaques e Desmemórias, O Empinador de Estrela, A Morte Sem Colete, entre outros. Para ele, São Paulo era a fonte principal, "a cidade e sua gente, pessoas que vivem nesse cimento, enfrentando filas de ônibus, filas para o estádio, aqueles que eventualmente tomam um táxi, além dessa periferia desconhecida".

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