Loucura de Gógol e lucidez de Miller são equivalentes

Loucura de Gógol e lucidez de Miller são equivalentes

Transe místico no fim da vida do autor de 'O Nariz' parece experiência do mecânico de 'O Homem da Sorte'

Cláudia Ribeiro/Divulgação, Eriberto Leão e Bel Kutner em produção de 'As Bruxas de Salém'

06 de dezembro de 2009 | 05h00

De tanto desafiar as instituições, Arthur Miller e Gógol acabaram criando personagens que serviram de bodes expiatórios da paranoica sociedade que retrataram no palco – seja a americana ou a russa. Gógol fez do oficial Kovaliov de O Nariz (1836) o "bode" da vez, ao escrever o conto satírico que daria origem à ópera homônima de Shostakovich em 1930. Miller elegeu um personagem real, o comerciante John Proctor de As Bruxas de Salém (1953), baseado no perfil do taverneiro que viveu entre 1632 e 1692 em Massachusetts, durante a caça às feiticeiras locais, acusado de bruxaria e condenado injustamente à forca.

 

Em O Nariz, Gógol usa um major de São Petersburgo, cujo nariz desaparece misteriosamente do rosto para ter vida independente, como isca de uma sociedade que não dá a mínima para a desgraça alheia, mas tira sensações dela, alimentando mexericos e preconceitos. O nariz de Kovaliov é achado por um barbeiro num pedaço de pão. Prontamente, com medo da Polícia, sua mulher o convence a ocultá-lo. Os policiais, por sua vez, não se comovem com o drama do oficial, que procura os jornais para publicar – inutilmente – um anúncio sobre o inaudito acontecimento. Sem razão aparente, o nariz volta ao rosto do dono após sua via-crúcis de descaso e humilhação pública.

 

Em As Bruxas de Salém, Kovaliov seria Proctor, o proscrito de uma sociedade puritana mais interessada nas relações extraconjugais do taverneiro, acusado por uma ex-amante rejeitada, do que no próprio diabo – supostamente o réu no processo dos colonos puritanos que condenaram ao enforcamento 19 pessoas apontadas como feiticeiras. Se todos querem ver como ficou o rosto de Kovaliov sem o nariz, atraídos pelo insólito, a massa, na peça de Miller, só está interessada no espetáculo da caça às bruxas, repetido séculos depois, para deleite dela, durante o macarthismo, que trocou as feiticeiras pelos comunistas.

 

O russo Shostakovich, criado numa sociedade comunista, a soviética, ao justificar a transposição do conto de Gógol para o mundo da ópera, em plena era stalinista, disfarçou, dizendo que se tratava de uma crítica ao individualismo: "Todos estão pensando em seu próprio nariz, quando deveriam estar pensando na causa comum". No final, enrolado, o compositor definiu seu O Nariz como uma alegoria contra a burocracia. Pior a emenda. Caiu em desgraça junto ao regime de Stalin, repleto de burocratas, e acabou acusado de formalista.

 

A tradutora do teatro completo de Gógol (leia resenha do livro na página ao lado), Arlete Cavaliere, chama a atenção, em seu prefácio, para situação semelhante enfrentada pelo autor durante o regime do czar Nicolau 1. Se dependesse dos poderosos que rodeavam Gógol, observa, O Inspetor Geral teria sido imediatamente retirada de cartaz. Só não saiu porque alguns amigos do autor da peça convenceram o tirano que ele poderia ser comparado a Luís 14 (que liberou O Tartufo, de Molière), absolutista, mas culto. Seis anos depois, o próprio Gógol se encarregou de mudar o epílogo de sua comédia (O Desenlace de O Inspetor Geral), optando por uma visão místico-religiosa em que se redime e chega a dizer que quem escreveu a peça não tinha amor à pátria, por obrigar os russos a rirem deles mesmos.

 

Revisão

 

Não existiria na Rússia, segundo o epílogo – o longo monólogo do ator cômico – uma cidade com tipos tão infames como o autor retratara em O Inspetor Geral. A autocrítica continua. Seu inspetor geral, agora segundo a revisão de Gógol, não seria um cínico farsante, mas o supremo juiz que nos aguarda à beira do túmulo, nossa consciência, da qual não se pode escapar. Khlestakóv é uma consciência leviana, mundana, subordinado pelas paixões, acusa Gógol, terminando com um chamado patriótico um tanto fora de propósito, mas compreensível – O Desenlace de O Inspetor Geral é de 1846, quando o escritor, convertido ao cristianismo, defendeu a existência de uma divina hierarquia que rege o planeta.

 

Curiosamente, o fim da carreira algo patético do dramaturgo russo, que se deixou morrer por inanição, coincide com o começo da história teatral de Arthur Miller. Em sua estreia, O Homem de Sorte (The Man Who Had All the Luck, 1944) ele trata justamente da vida de um mecânico de automóveis que crê ser tocado pela Graça, mas que, na verdade, pode estar enlouquecendo. Não deve ser casual a encenação de um drama que bem poderia estar relacionado – ainda que involuntariamente – à vida do último homem que o americano Arthur Miller citaria como seu mentor.

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