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Ayrton Vignola/AE
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Loucura calculada

Mariana Lima brilha em Pterodátilos e reforça sua posição de grande atriz

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2011 | 00h00

Em Pterodátilos, peça em cartaz no teatro Faap, a atriz Mariana Lima interpreta Grace, mãe voraz e consumista, que vive com um estado de espírito sempre em alta frequência. "Certa noite, quando estava saindo de uma cena, dei de cara com o (diretor) Felipe Hirsch, na coxia. Foi uma surpresa porque ele nunca faz isso. Felipe me olhou bem e disse apenas: "Sobe o tom". Retornei logo em seguida e fiz o que ele determinou", conta Mariana, que não mais desviou da rota.

Uma preocupação acertada do diretor - em mãos menos delicadas, Grace pareceria uma histérica sem propósitos. Mariana, no entanto, uma das melhores atrizes da atualidade, jamais ultrapassa o limite, deixando o espectador maravilhado diante de um personagem aparentemente fútil mas com diálogos tão surpreendentes. "Felipe pediu para que eu falasse alto, mas não gritasse. Então, utilizo uma intensidade em que Grace pareça vazia e densa ao mesmo tempo."

Aos 38 anos, 21 de carreira, Mariana Lima exibe um conjunto de expressões faciais que, junto da atitude corporal e das inflexões de voz, revelam uma atriz em estado refinado. "Ela é um vulcão em cena e, o mais surpreendente, é que teve menos tempo que todos nós para se adaptar à montagem", comenta Marco Nanini, figura central de Pterodátilos, em que vive dois papéis. De fato, ao contrário do que estava acostumada, Mariana teve apenas dois meses de preparação, período que aproveitou tanto descobrindo a loucura das maravilhosas peruas do seriado Absolutely Fabulous e a excêntrica mãe de Grey Gardens, como a rotina de certas beldades da sociedade paulistana, cópia fiel das atitudes de Grace.

Dois meses não são praticamente nada para quem estava acostumada a longos processos de criação coletiva - Mariana começou a se tornar conhecida quando ingressou no grupo Teatro da Vertigem, comandado por Antônio Araújo, o Tó, em 1995, na montagem de O Livro de Jó, encenado em um hospital desativado. "Eu tinha voltado de uma temporada nos Estados Unidos, onde cheguei a morar até na casa do compositor Phillip Glass, e tentava a carreira de atriz", relembra Mariana, que passara rapidamente pelo CPT de Antunes Filho e o teatro Oficina de José Celso Martinez até ser convidada por Araújo. "Ele me viu em Futebol, peça dirigida pela Bia Lessa."

Foi o início de uma década intensa: a cada trabalho do grupo, a exigência era epitelial. Para O Livro de Jó, por exemplo, o grupo frequentou hospitais e o IML e até experimentou doenças no próprio corpo. A intenção do diretor era que os atores tivessem dor e a sensação de perda. "Meu teste para o papel da mãe de Jó também foi difícil", conta. "Tó me deixou dentro de um quarto e, ao sair, disse que me depararia com meus filhos. Assim que passei pela porta, eu me surpreendi com vários ossos espalhados pelo chão. Aquilo me provocou uma intensa reação."

Não menos dramática foi a preparação e encenação do espetáculo seguinte, Apocalipse 1.11, que estreou em 2000 em um presídio desativado. Dessa vez, os atores conheceram as mazelas do Carandiru, casas de prostituição e enfrentaram o problema das drogas. "Tornei-me amiga de carcereiros e participei da criação da cena em que participaram profissionais de shows de sexo explícito", conta. "E, pensando bem, meu papel, Babilônia, a mãe das meretrizes, poderia ser também a da mãe de Grace."

O estudo era profundo, as atividades intensas e sem hora para terminar. O grupo invadia madrugadas no processo criativo e frequentava lugares sujos. Mariana começou a sentir os efeitos do excesso. "Adquiri uma alergia praticamente incurável, que apenas trocava de posição no corpo." Depois de experimentar sem sucesso inúmeros remédios, o problema só foi resolvido quando Mariana resolveu deixar o Teatro da Vertigem.

Buscava agora uma vida cotidiana, sem excessos. "O Vertigem me proporcionou um aprendizado poderoso e que me serve até hoje", percebe. "Mas, ao deixar o grupo, precisei me reorganizar como pessoa pois não vivia com uma rotina." A descoberta começou em 1997, durante a filmagem de Kenoma, de Eliane Caffé, na qual a atriz conheceu o ator e diretor Enrique Diaz. Terminada a temporada de Apocalipse 1.11, Mariana já tinha planos com Diaz.

A união resultou não apenas em um sólido casamento, que ainda perdura e que proporcionou o nascimento de Elena, hoje com 6 anos, e Antônia, de 2, como também o de espetáculos mais intimistas, como A Paixão Segundo GH, inspirado na obra de Clarice Lispector. Surge o Coletivo Improviso, reunião de artistas investigadores de performance e de dança do Rio. "Preparamos agora a encenação de outra peça de Daniel MacIvor, de In on It. Agora para duas atrizes." A experimentação não tem limites para Mariana Lima.

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