Loucos por Guiomar

Jovens músicos colecionam gravações e mantém viva a admiração pela pianista

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2010 | 00h00

Fascínio. Cristian, Antônio e Erika: elogios à devoção ao compositor, à simplicidade com que enfrentava o grande repertório e à musicalidade amadurecida e profunda da pianista brasileira

 

    A lista de fãs de Guiomar Novaes é famosa. Nelson Freire, além de uma coleção invejável de gravações, de estúdio e garimpadas em acervos particulares e de orquestras, ostenta na sala de sua casa no Rio os pianos que pertenceram à pianista. "Guiomar é uma paixão da vida toda, uma paixão musical que começou ainda quando eu era menininho", diz.

Freire conta que ouviu Guiomar pela primeira vez levado por sua professora, Nise Obino. "Ela me disse que precisávamos ir ouvir uma pianista, a maior pianista do mundo, que por acaso era brasileira." Paixão à primeira vista. "A primeira vez que ouvi o Concerto n.º 2 de Chopin com ela, no Municipal do Rio, foi uma revelação. Nunca tinha percebido a obra daquela maneira. Era diferente de tudo, nunca havia ouvido algo daquela maneira."

A sensação foi compartilhada por muitos. O poeta Paulo Bonfim, após um recital da pianista, correu para o papel e transformou sua arte em versos. "Mãos encantadas formando/ A geografia do som,/ Anjos de amor percorrendo/ O tempo dos corações,/ Momentos de eternidade/ Iluminando caminhos/ Em vosso gesto-presença,/ Tocai-nos com vossa graça,/ Guardai-nos em vossa arte,/ Transfigurai-nos em música."

Tamanho fascínio ultrapassa o tempo e, 30 anos após sua morte, a pianista encanta uma nova geração de pianistas brasileiros. "Eu tinha acabado de entrar na USP, fazia aulas com Gilberto Tinetti, e não fazia ideia da existência da Guiomar Novaes", conta a pianista Erika Ribeiro, de 28 anos. "Até que comprei o disco com o Concerto n.º 4 de Beethoven e a Sinfônica de Viena regida pelo Otto Klemperer muito por acaso, na promoção de uma loja, e fiquei pasma logo nos primeiros acordes. Tudo me impressionava: a sonoridade, a técnica apuradíssima, a musicalidade única, e, não menos importante, o fato de ela ser brasileira, e eu nunca ter ouvido falar nela! Só sei que ouvi esse disco por muito tempo, e ouço até hoje: e cada vez mais me convenço de que seria impossível alguém tocar Beethoven com tanta profundidade, como ela ali conseguiu."

Com Cristian Budu, pianista de 22 anos, a primeira vez com Guiomar também se deu por acaso. "Eu estava procurando interpretações do concerto de Schumann, uns nove anos atrás, e me deparei com a gravação que ela fez com Otto Kemplerer. Não sabia quem estava tocando quando ouvi, mas fiquei fascinado. Tratava-se obviamente de um dos grandes pianistas do século 20, pensei. Quando fui conhecendo mais a fundo seu legado, percebi que não era mesmo." Antonio Vaz Lemes, de 31 anos, lembra de um "vinil que garimpei no centro da cidade". "Eu tinha 18 anos e, com aquele disco, fui apresentado não só a ela mas a um autor que praticamente desconhecia, Schumann. Fiquei duplamente chocado!"

E como explicar tamanho fascínio? "O que eu acho bonito na arte da Guiomar é que ela não tentava estampar a música com sua própria personalidade: não existia sugestão de que "esse é o meu Chopin ou meu Schumann". Ela mediava o compositor e o ouvinte, se colocando devota e a serviço do compositor. Acredito que seja esse o melhor exemplo que ela passa para nós, jovens pianistas, e para todos os que virão: o da devoção!"

Erika concorda, e vai além. "São tantas as qualidades da Guiomar... mas acho que o grande diferencial dela como pianista é a união de certa simplicidade no tocar a um refinamento sonoro magistral. O resultado disso é uma musicalidade muito amadurecida e profunda, qualidade rara em qualquer músico. Apesar de nunca tê-la ouvido ao vivo, eu sinto em suas gravações que ela tem algo meio espiritual a revelar para o público. É como se música fosse uma religião para ela."

"É difícil definir a genialidade de Guiomar", diz Cristian. "Vê-se algo tão grandioso e transparente que só é totalmente dizível através de si mesmo. Mas talvez a simplicidade íntima com que ela toca é aquilo que mais me chama atenção. É uma forma de cativar que gera talvez os sentimentos mais nobres e universais", completa o pianista, que acredita na permanência do legado da artista. "O verdadeiro artístico perdura, pois ele fala do ser humano de uma forma que ele sempre possa se reconhecer e se elevar em suas virtudes. Essa sensibilidade com a qual Guiomar Novaes transparecia na música é tão criativa. Ela é inspiradora; aqueles que tem contato profundo com a sua forma de se expressar descobrem na música um sentido que transcende estilo de época e expande os caminho da arte na história."

Nenhum dos três pianistas teve a oportunidade de ver Guiomar no palco, mas, como memória também pode ser manifestação de um desejo, eles imaginam peças que gostaria de ver a pianista tocando. "Seria incrível ouvi-la no Concerto n.º 2 de Rachmaninoff, em obras da última fase de Schubert e Beethoven", diz Erika. "Eu adoraria poder ouvir a Sonata op.109, de Beethoven, e os improvisos de Schubert. E a Kreisleriana, de Schumann." Lemes pensa em Fauré. "Qualquer peça dele nas mãos dela seria incrível! Especialmente um dos Nocturnes."

QUEM É

Guiomar Novaes, pianista.

CV: Nasceu em São João da Boa Vista, em 28 de fevereiro de 1894, e morreu em São Paulo, em 7 de março de 1979. Construiu sólida carreira no exterior, sobretudo nos EUA, e foi grande divulgadora de Villa-Lobos fora do País.

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