Loucos por Cinema transforma Sesc em estúdio cinematográfico

Mostra conta com exposição de cartazes, fotos, reprodução de sets de filmes nacionais e projeções de longas

Luiz Carlos Merten, do Estadão,

07 de setembro de 2004 | 16h00

Há uma impressionante galeria de fotos - muitas delas inéditas, ou pelo menos não incluídas nos livros que, nos últimos anos, contaram a história da Vera Cruz. Em uma delas, Eliane Lage, a Greta Garbo da Vera Cruz, irrompe no quarto de Ângela, que interpretou na Cinecittà de São Bernardo do Campo, em 1951, sob a direção de Abílio Pereira de Almeida. Você se vira e não precisa de um movimento muito grande - uma panorâmica de menos de 180 graus, feita com o olhar, revela o cenário reconstituído de Ângela, aquele quarto, exatamente.   Imagens da exposição   O evento que começa na quarta-feira, 5, no Sesc Santo André tem atrativos de sobra para inflamar a imaginação de cinéfilos e, quem sabe, formar levas de espectadores no amor ao cinema. Fotos, objetos de cena -, maquetes, projetores de todos os tipos - quase tudo garimpado no museu de AntônioVituzzo, lendária figura que encarna o louco por cinema em São Paulo -, uma sala antiga (com poltronas duras, de madeira) e filmes, muitos filmes. Em 1995, André Luiz de Oliveira fez, em Brasília, um filme muito bonito chamado Louco por Cinema. Dez anos mais tarde, o louco multiplicou-se - e um evento no Sesc Pompéia, em São Paulo, chamou-se justamente Loucos por Cinema. Era voltado para o cinema mundial, mas, quando o Sesc Santo André resolveu fazer a sua versão de Loucos por Cinema, a ênfase, até pela proximidade de São Bernardo do Campo, o B do ABCD, foi colocada no cinema brasileiro. Há um núcleo dedicado exclusivamente à Vera Cruz, ao sonho de um cinema bem-acabado e internacional, um delírio de megalômanos paulistas no fim dos anos 40 e início dos 50, que durou pouco, mas deixou um legado que até hoje excita corações e mentes. O Sesc Santo André, do ponto de vista arquitetônico, é um dos mais bonitos de toda a rede Sesc. Situa-se próximo a três e, talvez, quatro favelas da cidade no ABC, atendendo a um público eclético que inclui, também e principalmente, as crianças das redondezas, atraídas pela variada programação cultural e, também, pelo complexo de piscinas. O coordenador de Programação do Sesc Santo André, Adolfo Mazzarini Filho, analisa alguns números: "Diariamente, temos condições de atender a até 1.500 crianças. Nos fins de semana, o número mais do que dobra - nosso público chega a 4 mil, dependendo da programação". A que começa na quarta deve estender-se por três meses, durante os quais a expectativa é de que mais de 100 mil pessoas freqüentem a área de lazer transformada em reino da cinefilia. Máximo Barro faz a curadoria do evento, que ocupa 1.312 metros quadrados do Sesc Santo André. Ele diz que, apesar do crédito, sua participação foi mais como consultor histórico, já que não participou da seleção de filmes. Autor do livro Caminhos e Descaminhos do Cinema em São Paulo, professor na Faap, Máximo Barro possui um registro detalhado de todos os filmes que estrearam na cidade nos anos 30. Isso lhe permite dizer, com autoridade, que, embora o evento em Santo André não seja comemorativo de nenhuma data, pode-se ver nele uma comemoração dos 70 anos de duas das mais importantes salas no Centro de São Paulo, o Art Palácio, que surgiu como UFA, para exibir a produção germânica (nazista) da época, e o Metro. "O UFA era tão importante para eles que eu tenho uma foto do zepelim passando sobre o cinema", conta o professor. Deve-se à sua acuidade histórica uma das peças mais interessantes de todo o conjunto - justamente a maquete que reproduz a Cinelândia paulistana, num eixo que vai do Largo Paiçandu, onde se localizava o UFA, até a esquina da Timbiras, onde ficava o Cine Metro e hoje abriga uma igreja evangélica. Estão ali todos os traçados de ruas, com seus prédios. Eles incluem as fachadas dos cinemas que foram sendo destruídos, ou viraram templos, bingos e salas pornográficas. "Já havia uma maquete parecida no Sesc Pompéia, mas esta é muito mais completa", diz Adolfo Mazzarini Filho. "Incluímos mais ruas e existem muito mais detalhes", ele acrescenta. Os olhos podem passear por aquelas fachadas - a do UFA anuncia Boccaccio, produção alemã exibida em 1937 na sala e que, portanto, não tem nada a ver com Boccaccio 70, no começo dos anos 60, com seus episódios realizados por Federico Fellini, Luchino Visconti e Vittorio De Sica. Se a imaginação for bastante forte, o observador pode-se projetar no público que passeia pelo local, olha os cartazes dos cinemas de rua (quando eles ainda existiam, os cinemas e os cartazes). Tudo é cuidadosamente reconstituído, desde os modelos de roupas aos de carros. Além das dezenas de fotos - uma delas mostra Zbigniew Ziembinski, o diretor polonês que revolucionou o teatro brasileiro, capa desta terça do Caderno 2, como ator em Tico-Tico no Fubá, um dos maiores sucessos da Vera Cruz -, existem também os sets, como o quarto de Ângela e duas celas do Carandiru. O filme que Hector Babenco adaptou do livro de Drauzio Varella foi rodado no estúdio da Vera Cruz, onde foi montado um set gigantesco que reproduzia, cenograficamente, o célebre Pavilhão 9, onde ocorreu o massacre de 111 presos. AdolfoMazzarini Filho acompanha o repórter. "Olha aqui uma cela comum do Carandiru", ele mostra. "Olha agora essa outra." O repórter atravessa o corredor cenográfico e entra numa cela de evangélicos, tal como elas existiam no Presídio de São Paulo. O ambiente é mais cuidado e, mesmo dentro de uma cela, propício à oração. Por mais fotos, maquetes, pôsteres - há uma exposição de cartazes de José Luiz Benício, que também ministra uma oficina -, nenhuma programação chamada Loucos por Cinema estará completa sem os filmes. Eles se dividem em ciclos, minimostras que contemplam o período da Vera Cruz, documentários e o cinema da Retomada, cujo marco é Carlota Joaquina, em 1995. Existem também peças (Salmo 91, de Dib Carneiro Neto) e shows (Cida Moreira na Trilha do Cinema e Lívio Tragtenberg e a Blind Sound Orchestra), compondo a programação paralela. Adolfo espera acrescentar algo mais aos freqüentadores da unidade e também despertar interesse dos cinéfilos de São Paulo (e do Brasil). Uma das raridades em exibição no Sesc Santo André será o documentário Obras Novas - Evolução de Uma Indústria, de 1951, justamente sobre a construção da Vera Cruz.

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