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Louca obsessão

Retrospectiva reúne obras da visionária Yayoi Kusama

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2013 | 02h15

Aos 84 anos, a artista japonesa Yayoi Kusama mantém um invejável índice de popularidade, mesmo reclusa, desde que decidiu por vontade própria se internar numa clínica psiquiátrica quando retornou ao Japão, em 1977, depois de viver a vida louca na Nova York dos tumultuados anos 1960. Sucesso até entre usuários de jogos eletrônicos, suas bolinhas, imitadas por Damien Hirst, atraíram um público imenso para a exposição Yayoi Kusama: Obsessão Infinita, no Malba de Buenos Aires. A mostra, que será aberta no CCBB do Rio no próximo dia 11, para convidados, deve chegar a São Paulo em maio de 2014, depois de passar por Brasília em abril.

Já no fim dos anos 1950, quando o espírito da arte pop começava a se espalhar pela América, Yayoi Kusama, então parte da turma dos performáticos nova-iorquinos, declarava que sua vida era um ponto, "uma partícula entre milhões de outras partículas". Sua "obsessão infinita" era cobrir o mundo com esses pontos, ou melhor, com suas bolinhas, disposta a não deixar espaço sem sua marca registrada. Esse transe narcísico tem algo de patológico, o que é compreensível para uma filha de comerciantes obrigada pela mãe, que a castigava, a seguir o pai em suas escapadas extraconjugais.

Vítima de alucinações, ela descobriu uma forma engenhosa de lidar com suas fobias: trocou a rigidez de sua formação japonesa pela efervescente cena contracultural nova-iorquina dos anos 1960. Yayoi desembarcou em Seattle em 1958 e logo adotou Nova York, relacionando-se com expressionistas abstratos e o grupo pop que começava a se formar em torno da figura de Andy Warhol. Foi por essa época que nasceu sua série Redes Infinitas, pinturas com até 10 metros de largura que registravam a obsessiva repetição de arcos de pigmento branco.

Enquanto Warhol atraía a atenção do poderoso marchand Leo Castelli, Yayoi, militante pelos direitos da mulher, ignorava o mercado de arte e marchava pelos direitos civis, participando de happenings e performances (quase sempre sem roupa). Frances Morris, curadora da Tate Modern de Londres e da retrospectiva da artista japonesa, em entrevista ao Caderno 2, revelou que, ao contrário do esperto Warhol, a japonesa não conseguiu nem o apoio de Castelli nem de outros marchands. "Isso a obrigou a buscar novos meios de se expressar fora das galerias, trocando o espaço privado pelo público, o que explica tantas performances e happenings".

Uma delas, registrada no Black Gate Theatre, que a curadora define como a base para seu seminal e revolucionário filme Self Obliteration (1968), está na retrospectiva brasileira, composta por uma centena de obras que cobrem o período de 1949 a 2012. Há também trabalhos em papel, pinturas, esculturas e instalações, entre as quais se destaca Dots Obsession (The Mattress Factory, Pittsburgh, 1996), sala amarela coberta por bolinhas pretas de diferentes tamanhos com uma forma fálica dominando o ambiente. A exemplo de seu amigo Claes Oldenmburg, ela gosta de esculturas pantagruélicas e, seguindo o exemplo de Louise Bourgeois, suas explícitas referências ao sexo "constituem uma deliberada reação contra os valores burgueses e ultraconservadores" - no caso, do Japão do pós-guerra.

Yayoi já trazia uma bagagem artística do Japão, mas foi nos EUA que sua arte se desenvolveu, embora lá tenha passado fome e frio, explorada por redes como a Bloomingdale's, que chegou a vender objetos desenhados por ela. De volta ao Japão em 1973, ela só retornou ao cenário americano com uma retrospectiva de sua obra em Nova York, em 1989. Em 1993, representou o Japão na Bienal de Veneza, onde antes (1966) mergulhou numa piscina de bolas espelhadas, depois reproduzida no Instituto de Arte Contemporânea de Inhotim (Minas).

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