Lorenzon investiga fracasso amoroso

Um homem um dia acorda, senta na cama e sorri. Depois de tanto tempo, nada mais doía. Ele podia, enfim, se lembrar das duas mulheres que amou. E tentar entender como e por que fracassou com cada uma delas. Em linhas gerais é esse o enredo que o ator João Paulo Lorenzon conduz no monólogo De Verdade. O espetáculo é uma versão do livro homônimo do escritor húngaro Sándor Márai e abre temporada hoje no novo teatro da Livraria da Vila, no shopping Cidade Jardim.

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2010 | 00h00

Quem conduziu a adaptação do romance foi o próprio Lorenzon, intérprete já acostumado a verter obras literárias para o palco. Em 2008, ele lançou-se sobre o universo de Jorge Luis Borges para construir a montagem de Memória do Mundo. Já no ano passado, entregou-se à intrincada tarefa de teatralizar o poema de Jean Genet, O Funâmbulo, e seria justamente em meio às dificuldades dessa transposição que encontrou a história de desencanto amoroso escrita por Márai.

A permear os três textos que o ator montou nos últimos anos, todos monólogos, podemos notar certa permanência da solidão à espreita. "É um olhar para a solidão de pontos de vista diferentes. No caso do Borges, é uma solidão daquele que rememora, que lembra. Já em O Funâmbulo, ela aparece como absolutamente necessária para um encontro com a dor", comenta o intérprete.

Dirigida por Antônio Januzelli, a encenação de De Verdade é econômica. Com acabamento cênico delicado, e pouca movimentação, preocupa-se essencialmente com as inflexões do texto. E é assim que consegue transformar as quase 500 páginas do livro em um espetáculo de pouco mais de 50 minutos. A peça opta por deter-se apenas no depoimento de Peter, o marido, sem imiscuir-se nas confissões de Marika e Judite, suas duas mulheres.

De um lugar distanciado, num momento em que já conseguiu apaziguar suas feridas, esse homem revisita seus fracassos conjugais e se pergunta, constantemente, se existe, afinal, aquela que seria a mulher certa. "Não existe em lugar nenhum aquela", diz o personagem já no prólogo do espetáculo. "Existem apenas pessoas, e em todas elas há um grão da verdadeira, e em nenhuma delas há o que do outro nós esperamos e desejamos", completa.

As figuras de Marika e Judite apontam para lugares muito distintos do feminino. A primeira é educada, bem nascida, apta a se portar com distinção em todas as situações. Mas Peter não é capaz de acolher o seu afeto. Na segunda, de origem pobre, despontam uma vitalidade e uma sexualidade incontroláveis. E é precisamente a ameaça de ser tragado por esse descontrole, por essa imensa pulsão de vida, o que intimida o protagonista.

"Muitas das questões que estão colocadas na peça são humanas: as máscaras, as defesas. Mas queria lidar com alguns pontos que são essencialmente masculinos, como essa necessidade de cercear, de controlar", diz Lorenzon. "O que está em discussão é a dificuldade de se entregar verdadeiramente. A gente geralmente acha que consegue bancar essa entrega, mas não consegue."

DE VERDADE

Teatro da Livraria da Vila (100 lug.). Shop. Cid. Jardim. Av. Magalhães de Castro, 12.000, 3755- 5811. Sáb., 20h; dom., 18h. R$ 40.

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