Longo e agoniado improviso de jazz

Em O Jogo da Amarelinha, Julio Cortázar desconstrói a trama num ritmo particular

Eric Nepomuceno, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2010 | 00h00

Houve um determinado período do século passado em que a literatura hispano-americana alçou voo de vez. Exemplos dessa enxurrada de maravilhas: em 1950, Juan Carlos Onetti publicou A Vida Breve. Três anos depois, Juan Rulfo apareceu com os contos de O Chão em Chamas. Em 1955, o mesmo Rulfo publicou Pedro Páramo, romance definitivo que mudaria o panorama literário do idioma castelhano nas Américas. Quatro anos mais tarde, apareciam os contos de As Armas Secretas, de Julio Cortázar. Em 1961, foi a vez de Gabriel García Márquez e Ninguém Escreve ao Coronel, e de Onetti tornar a se eternizar, com O Estaleiro. No ano seguinte vieram A Morte de Artemio Cruz, de Carlos Fuentes, e Mario Vargas Llosa com A Cidade e os Cachorros. Foi um aluvião formidável, que culminou em 1967 com o imbatível Cem Anos de Solidão, de García Márquez.

Pois nesse período de ouro houve um romance que fugiu totalmente de qualquer padrão: O Jogo de Amarelinha, de Julio Cortázar. Publicado em 1963, tornou-se um totem para gerações de leitores e escritores (quantos se influenciaram por esse texto insólito, belíssimo?), um marco permanente.

Hoje, quase meio século depois, continua revolucionário. Um livro como uma verdadeira rebelião contra as regras do bom romance. E não se trata apenas do seu lado lúdico, desse labirinto no qual o leitor é orientado a se perder e inventar a própria saída, entre todas as saídas propostas pelo livro. Não: Cortázar desmontou o romance, desarmou sua estrutura, desconstruiu sua arquitetura, revirou sua escrita, que flui como um longo, belo, agoniado improviso de jazz. Estranho, desconcertante, O Jogo de Amarelinha estilhaça o tempo, explode espaços, se reconstrói a partir de fragmentos velozes.

Tem duas qualidades essenciais: deixa mais perguntas que respostas e é escrito com uma imensa carga de humanidade. Um texto sensível, generoso, poético, solidário, irreverente, que cria cumplicidades - o próprio retrato de Cortázar que os amigos guardam na memória.

Uma observação final: estou revendo a nova tradução de O Jogo de Amarelinha. É, de longe, a mais difícil das traduções que fiz. Todas, incluindo Rulfo, García Márquez, Onetti, o próprio Cortázar de As Armas Secretas. Um livro definitivamente grandioso, essencial, permanente.

ERIC NEPOMUCENO, ESCRITOR E TRADUTOR, É AUTOR, ENTRE OUTROS TÍTULOS, DE O MASSACRE (PLANETA) E ANTOLOGIA PESSOAL (RECORD)

O JOGO DA AMARELINHA

Autor: Julio Cortázar

Tradução: Fernando de Castro Ferro

Editora: Civilização Brasileira

(640 págs., R$ 63)

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