Imagem Sérgio Augusto
Colunista
Sérgio Augusto
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Longe do paraíso

Lia 'A Oeste do Éden', de Jean Stein, quando soube que ela acabara de se suicidar

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

13 Maio 2017 | 02h00

Isto não é um diário, mas poderia ser. Então recomeço: domingo, 30 de abril, final de tarde. Ao chegar à pág. 282 de A Oeste do Éden, que no fim de semana seguinte comentaria neste caderno, sou surpreendido por um furo do site do Daily News: Jean Stein, a autora do livro, acabara de se suicidar. Autor morto a gente costuma ler até mais do que os vivos, mas naquelas circunstâncias e com o corpo ainda no necrotério nunca me havia acontecido. Pelos meus cálculos, fazia apenas cinco horas que Jean se jogara do 15.º andar do prédio em que morava, na Gracie Square, em Manhattan. 

Foi uma experiência bizarra, perturbadora, que levei um dia para metabolizar. Noves fora o fato de ter gostado imensamente do livro e admirar a autora, ela se matara como Mary Jennifer, a protagonista do penúltimo capítulo de A Oeste do Éden, justo o que estava a ler na tarde de domingo. Em maio de 1976, a jovem e bipolar filha da atriz Jennifer Jones atirou-se do 22.º andar de um prédio de Westwood, em Los Angeles. Coincidência demais.

Mesmo que eu estivesse lendo O Velho e o Mar em 2 de julho de 1961, quando Hemingway estourou os miolos, o impacto teria sido diferente. Suicídios perpassavam as narrativas de Adeus às Armas e Por Quem os Sinos Dobram, mas Santiago, o pescador de O Velho e o Mar, não dava cabo da própria vida. Além disso, fazia então um bom tempo que não abria um livro de Hemingway, interregno só interrompido quando lançaram o póstumo Paris É Uma Festa. 

Se eu estivesse lendo Sylvia Plath no dia (11 de fevereiro de 1963) em que ela vedou as portas e ligou o gás da cozinha, bem, naquela época a desconhecia por completo. Conheci e admirava Ana Cristina César, mas em 29 de outubro de 1983, quando ela, à maneira de Jean Stein, atirou-se do alto de um prédio em Copacabana, eu estava viajando, sem um escasso verso dela na bagagem.

 

David Foster Wallace renderia comparação mais conveniente. Eu podia estar lendo Infinite Jester em 12 de setembro de 2008 (a tradução brasileira, Graça Infinita, épica façanha de Caetano W. Galindo, ainda não existia), ou seja, no dia em que o autor se enforcou no quintal de sua casa e sem dúvida teria ficado impressionado se já tivesse passado ou estivesse passando pela pág. 227, onde a personagem Koelle, vê-se tentada a enforcar-se com uma corda. 

Suicídios são contagiantes, pesquisas confiáveis o demonstram. Werther foi um vírus espiritual, no século 18. Ao ser informada do suicídio de Sylvia Plath, a também poeta Anne Sexton ficou paralisada e balbuciou: “Eu deveria ter morrido no lugar dela” (tradução livre de “That death was mine”). Onze anos depois, envolta num casaco de pele herdado da mãe, Sexton trancou-se na garagem da casa, ligou a ignição do carro e enfim consumou o ato que outras vezes resultara infrutífero.

Como todos os citados, Jean Stein sofria de depressão em alto grau. Não era uma imagem woolfiana a que ela projetava publicamente. Jamais a imaginaria enchendo de pedras os bolsos do casaco e deixando-se arrastar pelas águas do Hudson ou do East River, muito menos se jogando de um edifício, uma das formas mais espalhafatosas de pôr termo à vida. Seu livro - história oral de cinco clãs que enriqueceram em Los Angeles e consolidaram a mitogonia hollywoodiana - é um vasto cemitério de canalhas, desajustados, deprimidos e suicidas, a maior parte criada em berço de ouro. Quem disse que dinheiro não traz infelicidade?

Jules C. Stein, pai de Jean, morreu podre de rico. Não como oftalmologista, seu métier inicial, mas como fundador e coproprietário da monopolista MCA (Music Corporation of America). Seu sócio, Lew Wasserman, vivia metido com gângsteres e enfartou com gritos histéricos um de seus subordinados na MCA. Não bastasse, foi quem mais estimulou Ronald Reagan a trocar o show business pela política.

Os Steins viviam numa mansão cercada por muros e jardins em Beverly Hills, que tinha nome romântico, Misty Mountain, e hospedou muitas histórias glamourosas e outras quase grotescas, frequentemente estreladas pelos pileques de Doris Stein, pelo descrito, uma bruaca, muito ligada à odiosa mãe de Gore Vidal, outra tremenda pinguça. No funeral do patriarca da família, Doris barrou a secretária e amante do finado, que teve de assistir à cerimônia trepada numa árvore, como a faulkneriana Caddy Compson no começo de O Som e a Fúria. 

“Quero morrer num jardim entre muros”, confessa Jean no último capítulo de seu livro, aludindo, obviamente, a Misty Mountain, para ela, o éden sobre a Terra. Tarde demais; seu destino era a selva de concreto. Sua alma cosmopolita levou-a a Wellesley, Sorbonne, ao jornalismo cultural (coeditou Paris Review com George Plimpton e Grand Street sozinha), teve um caso com William Faulkner, que tinha idade para ser seu pai. Reinava em Nova York como uma das maiores anfitriãs de intelectuais e artistas da Costa Leste. Foi numa de suas badaladíssimas festas que Gore Vidal e Norman Mailer se engalfinharam verbalmente em público pela primeira vez.

 

Imaginava-a uma Nora Ephron mais séria ou uma Renata Adler mais leve, não uma angustiada sobrevivente - de que mundo, exatamente, não sei, mas que ele, se não acabou, está no finzinho, como o nosso.

*

Aos que se empolgaram (ou sentiram-se aliviados) com a vitória eleitoral de Emmanuel Macron, um lembrete literário: no romance distópico de Michel Houellebecq, Submissão, quem chega ao poder na França em 2022 não é Marina Le Pen, mas o candidato da Irmandade Muçulmana Mohammed Ben Abbes. Com as consequências conhecidas por quem leu o livro. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.