Longe do ajuste fiscal

Nosso conselho, na TV Cultura, não é um conselho da Fundação Padre Anchieta, é um conselho da sociedade na Fundação Padre Anchieta. Nossos membros natos não representam o governo, mas o Estado em seu amplo sentido republicano. Nossos titulares eletivos também são representantes da sociedade, da dimensão pública do saber, como personalidades dos mais elevados segmentos da inteligência, das artes, do direito, das comunicações e das ciências. Assim, ambos os pêndulos do conselho têm a obrigação de expressar publicamente seus pensamentos e suas diretrizes para a governança e a programação das emissoras públicas da fundação privada.

JORGE DA CUNHA LIMA É EX-PRESIDENTE DA FUNDAÇÃO PADRE ANCHIETA, EX-PRESIDENTE DO CONSELHO CURADOR DA FUNDAÇÃOPADRE ANCHIETA, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2012 | 03h07

Televisão pública precisa ter algo a dizer, não pode ser apenas um preenchedor de lacunas. Dizer algo é o que legitima a TV Cultura. O dizer da Cultura, previsto em sua missão, implica a formação crítica do cidadão. Focaliza o indivíduo no que há de mais libertário: o juízo crítico. Utilizar seu dever de autoria junto às crianças, incutindo-lhes um espírito de criatividade e liberdade, não os infantilizando com um caráter consumista. Dialogar com a rebeldia dos jovens e seu ímpeto transgressor. Falar com os adultos numa abordagem plural e crítica, a partir do jornalismo e da dramaturgia; do jornalismo público que já soubemos editar no passado e, sobretudo, da dramaturgia viável que é o cinema.

O equilíbrio fiscal deve ser decorrência, posto que meio, e não anteceder escolhas outras, que representem os fins. Estou absolutamente convencido que a gestão das ideias e dos conteúdos deve prevalecer sempre sobre a gestão contábil e financeira. Há uma tentação moderna, que perdura há mais de 20 anos, de eleger a engenharia liberal das empresas, como modelo de todas as instituições, inclusive das instituições culturais públicas e privadas. Felizmente, essa hegemonia está com os dias contados, aqui e em todo mundo. A França que nos diga.

Aprovamos, há dois anos, quando eu era presidente do conselho, após inúmeras discussões, um contrato de gestão, que foi devidamente encaminhado à Secretaria da Cultura e, devidamente engavetado. Revitalizar a TV Cultura não vai por aí. Ciclicamente nos acenam com o tabu administrativo das Organizações Sociais, adequadas para instituições sem estrutura de recursos humanos e sem condições jurídicas de receber dinheiro da sociedade, por meio do orçamento público.

A Fundação Padre Anchieta tem formato jurídico e institucional, modelar, para superar todos os seus problemas e voltar a ser um orgulho de São Paulo. Basta que seja respeitada a sua autonomia intelectual, administrativa e financeira. Por isso mesmo, sou candidato à presidência do conselho.

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