Longe das câmeras, Babenco vai ao teatro

Ao lado da mulher, Bárbara Paz, cineasta assina espetáculo Hell

Maria Eugênia de Menezes,

03 de outubro de 2010 | 00h10

Há muito tempo, quando ainda era menino em Mar del Plata, Hector Babenco assistiu a uma montagem de À Margem da Vida, de Tennessee Williams. Não sabia, mas naquele dia o drama do autor norte-americano estava para mudar o curso de sua vida. Foi depois de ouvir o personagem da peça, Tom, expor suas razões para abandonar a mãe e a irmã e partir rumo à cidade grande, que Babenco resolveu deixar a Argentina. "Decidi na mesma noite que viria para o Brasil", lembra o cineasta, sentado em seu escritório, cercado pelos pôsteres dos filmes que dirigiu nos últimos 35 anos.

Na quinta-feira, Babenco estreia o espetáculo Hell. Leva ao palco do Teatro do Sesi sua adaptação para o romance da francesa Lolita Pille, e escala a mulher, Bárbara Paz, para o posto de protagonista.

A peça é sua terceira incursão pelas artes cênicas. Antes, já havia montado um texto de Sam Shepard, Loucos por Amor, e, 12 anos depois, Mais Perto, sua versão para Closer, do inglês Patrick Marber. Mas, ainda que bissexta, sua ligação com o teatro é antiga e estreita. Para ilustrar a tese, Babenco recorre à memória.

Trupe. Não era só como espectador que ele frequentava a única sala de teatro de sua cidade. Aos 17 anos, fazia parte de uma trupe. Varria o palco, ajudava os atores a decorar seus textos, vivia nas coxias. Seu pagamento era ficar no bar depois dos espetáculos, sentado num cantinho, escutando o papo dos adultos - conversas sobre os grandes Jerzy Grotowski, Louis Jouvet, Stanislavski. "Foi a minha formação. Não terminei a escola. Não fiz faculdade. Aprendi com essas pessoas."

Em São Paulo, o sonho de subir ao palco dissipou-se. "Eu não falava português. Como ia dizer um texto?" O jeito foi conformar-se com a função de camelô, batendo de porta em porta para oferecer as roupas de contrabando que a tia vendia numa loja na Rua Augusta.

Era de noite que sobrava um tempo para o teatro. E Babenco conta que viu tudo o que se fez por aqui em meados dos anos 1960. "Aos Pequenos-Burgueses, do Oficina, assisti três vezes. E o teatro de Arena. O Antunes Filho." Mas o destino o levou mesmo foi para detrás das câmeras. De onde não saiu mais e onde já ensaia um novo projeto: o longa Meu Amigo Hindu, que deve ter tom autobiográfico.

No teatro ou no cinema, há um traço de Babenco que se mantém: o jeito de dirigir atores. Ao menos é nisso que ele acredita. Explica que nunca disse a um ator o que ele deveria fazer. Deixa que os intérpretes o guiem e trabalha em cima disso, apropriando-se secretamente do que o outro lhe propõe. "Me sinto uma espécie de Robin Hood, que rouba o que as pessoas fazem."

Mas será que não existe mesmo nenhuma diferença entre um suporte e outro? O grau de frustração, ele responde de pronto. "O teatro é mais frustrante, porque mais difícil. O ator é um bicho que nunca se lembra do que fez no dia anterior. Está em constante estado de criação, sempre buscando algo melhor. E, no cinema basta que ele encontre uma única vez a forma de fazer as coisas. Mas no teatro, não."

Estética do vazio. Para conduzir Bárbara Paz e Ricardo Tozzi em Hell, Babenco diz que não procurou nenhuma estética ou formalismo rígido. Tratou de esvaziar ao máximo as interpretações - para evitar qualquer resvalada no melodramático - e buscou o jeito mais simples de contar a história de Lolita Pille. E o que será que o teria atraído nesse livro aparentemente tão fútil? Na hora de responder, o diretor mais confunde do que esclarece. "É um texto mixo, abjeto", ele decreta. "Completamente desnecessário. Não acrescenta nada dramaturgicamente, como literatura é uma literatura B. Às vezes, no meio do ensaio, eu mesmo me pergunto "por que é que estou contando essa história?""

Ao olhar inquiridor da interlocutora, ele esclarece que o grande achado de Hell é sua protagonista. Ainda que não carregue em seu bojo o mistério de uma obra a ser decifrada, o texto da autora francesa teria a capacidade de descortinar uma personagem incomum. "Ela não está presente nem na dramaturgia nem no cinema. Ou, quando aparece, é de forma muito caricata. Hell é alguém que tem nojo de si mesma, que tem consciência de que é uma drogada e de que vai continuar fazendo isso até morrer", explica. "Ela só faz mal a si própria, está sempre flertando com o abismo. É muito triste."

E tristeza é uma das constantes da obra de Babenco. "Não consigo me relacionar com a felicidade na arte. Meu lado melancólico argentino não permite."

A despeito de suas particularidades, Hell carrega o mesmo dado sombrio que cerca as outras personagens femininas do diretor. A mesma aura de fatalidade. "Essa mulher misteriosa, ligeiramente esquizofrênica, sempre foi uma coisa que me atraiu", diz. "Ficou para mim como o arquétipo de mulher ideal."

PARCERIA FORA DE CASA

BÁRBARA PAZ

ATRIZ

"Não o conhecia como diretor e foi uma surpresa para mim. Ele não tem nada de ditador. Me deu completa liberdade para criar."

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