Longe daqui e aqui mesmo

As Folhas do Cedro, de Samir Yazbek, nos 130 anos da imigração libanesa

Crítica: Jefferson Del Rios, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2010 | 00h00

Magia, palavra fácil, mas é o que ocorre quando o elenco de As Folhas do Cedro deixa lentamente o palco. No curto espaço da representação, o tempo se alonga para acolher a imigração libanesa ao Brasil que, em 2010, comemora 130 anos, e, dentro dela, o destino de uma família. Se a hipótese da presença de fenícios na Amazônia antes dos portugueses e espanhóis não está confirmada, ela serve como "maktub", expressão árabe para "está escrito". Porque séculos mais tarde, os habitantes da mesma região no Oriente Médio chegariam ao local em condições dramáticas. Não eram navegantes, mas pequenos artesãos, agricultores e vendedores no geral. Sempre espanta que grupos humanos de culturas tão diferentes como as do Oriente tenham se fixado ali, e vencido, em circunstâncias tão desafiadoras.

Em Tomé-Açu, Pará, por exemplo, viveu o menino japonês Flávio Shiró hoje um pintor brasileiro de expressão internacional. Há mais: judeus, alemães e os árabes da ficção de Milton Hatoum. O texto de Yazbek e sua tradução cênica prestam tributo aos que se afastaram da terra natal e, no caminho, se desgarraram dos seus e de si mesmos. Guardaram sempre a nostalgia da paisagem antiga, os usos e costumes do Líbano mítico dos cedros milenares. A imigração é sempre um acontecimento grave, uma violência aos que a ela recorrem. Os sinais ficam, e é deles que a peça fala.

Um libanês deixa a família em São Paulo e se embrenha nos confins brasileiros onde o governo militar construía a rodovia Transamazônica, projeto incompleto desde os anos 70. O local propicia negócios duvidosos, dinheiro suspeito, prostituição e violência. Este homem, banal e enigmático ao mesmo tempo, gosta dessa existência ou a toma como pretexto para abandonar a mulher e filhas. Mas o passado manda notícias, e ele terá pela frente a esposa repudiada a cobrar sonhos e tradições que se despedaçaram desde uma aldeia no Líbano.

Filho de libaneses, Samir Yazbek embaralha o jogo ao mostrar dados pessoais e ficção a partir da imigração. Há, de um lado, a crônica familiar na dramatização de vidas anônimas, e de outro a observação do desenraizamento, choques culturais e flashes da história recente (a ditadura militar). O enredo ao pretender um painel amplo - mas um épico sem heróis - dilui os personagens e deixa forçada a informação sobre a repressão militar. Não se sabe qual a profissão e a psicologia do protagonista. Se ele é um negociante ou um técnico que crê na rodovia. Igualmente fica no ar se é apenas um colecionador de mulheres ou um ser atormentado por horizontes impossíveis. Dramaticamente, o melhor dele é a angústia subentendida.

Neste momento, a dramaturgia de Yazbek tem um verdadeiro achado ao introduzir como narradora a filha que nunca conviveu com o pai. Na suas intervenções explicativas e nos diálogos imaginários com o grande ausente, a obra atinge pungência e força poética.

Seguro da escrita e das emoções a transmitir, o dramaturgo, ele mesmo, coloca sua obra no palco, e o resultado é excelente. Detalhes sutis do imaginário libanês são introduzidos em cena através dos sotaques, expressões árabes, cores, objetos e a bela música de Marcello Amalfi que remetem ao Oriente e à Amazônia. A cena de chuva é a síntese eloquente de um espetáculo emotivo com um elenco exato.

Os papéis episódicos ou fragmentados, difíceis de conduzir, estão bem delineados por Rafaella Puopolo, Douglas Simon e Mariza Virgolino. Especial encanto é dado pela menina Marina Flores, simbolizando a infância entre adultos contraditórios.

Já a carga dramática profunda está em boas mãos. Hélio Cícero empresta ao imigrante contraditório sua autoridade cênica e adequação física. Um ator a se respeitar. Daniela Duarte vence o desafio interpretativo de ser a estrangeira a falar português com dificuldade e uma mulher que luta mesmo em total desvantagem. Gabriela Flores, com porte altivo e contida emoção, traça o círculo da memória e do afeto. Sugere ao público a compreensão e o agradecimento que devemos aos libaneses e a todos os imigrantes que o bonito espetáculo homenageia.

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