Longa jornada vida adentro

Hoffman capta todo o desespero de Willy Loman em A Morte do Caixeiro Viajante

JOSEPH V. AMODIO , NEWSDAY / NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2012 | 03h11

Você é Philip Seymour Hoffman - ator, diretor e pai. Estrelou clássicos teatrais (Longa Jornada Noite Adentro, Otelo) e filmes (Dúvida, O Homem Que Mudou o Jogo, Tudo pelo Poder para mencionar apenas alguns). Não esqueça daquele Oscar de melhor ator por Capote. No entanto, você tem apenas 44 anos, e Willy Loman, o trágico herói de A Morte do Caixeiro Viajante de Arthur Miller, tem 63. Mas aqui está o aclamado diretor Mike Nichols afirmando que é assim que tem de ser.

"Eu disse que ele teria de encarar isto", lembra Nichols. "Ele retrucou: 'Eu sei, mas e agora? Tem certeza?' Ele percebeu imediatamente que, como direi, custaria caro. Emocionalmente, custaria muito caro para ele. É muito difícil fazer aquilo todas as noites, e no sábado duas vezes. Mas ele finalmente se compenetrou de que precisava fazer isso. É como estar na frente de uma montanha que você precisa escalar."

A reedição de A Morte do Caixeiro Viajante, que acaba de estrear no Teatro Ethel Barrymore, em Nova York, tem um elenco de enorme pedigree, inclusive a veterana atriz Linda Emond, no papel da mulher de Willy, Linda, e - como Biff, o filho pródigo - Andrew Garfield, um ator de formação inglesa, algumas vezes premiado, conhecido nos Estados Unidos por seu trabalho em A Rede Social, e que daqui a alguns meses será o intérprete do novo Homem-Aranha, como Peter Parker.

A Morte do Caixeiro Viajante em geral atrai grandes atores. A novidade agora é o público. "É sobre o momento atual", afirma Nichols. "Sobre todo mundo no Facebook. Todo mundo compartilha hoje com o personagem Willy o desejo desesperado por atenção."

"É preciso dar atenção", implora Linda na peça. Se pelo menos ela e Willy conhecessem as delícias do Twitter.

Na primavera de 1948, Miller construiu uma pequena cabana de madeira perto de sua casa de campo na qual escreveu A Morte do Caixeiro Viajante. O primeiro ato levou um dia. O segundo... seis semanas. A história acompanha Willy Loman, um caixeiro viajante já de certa idade, e sua mulher e dois filhos, que temem que ele esteja afundando na depressão. Há horríveis segredos de família. A ideia revolucionária de Arthur Miller foi contar a história de forma não linear, com Loman se perdendo em suas memórias e voltando à vida real.

A peça foi uma sensação, recebeu seis prêmios Tony. Miller ganhou um prêmio Pulitzer e o seu texto se tornou leitura obrigatória no ensino secundário e nas faculdades. "Entretanto, como toda grande peça, você não consegue apreciá-la enquanto não a vê no palco", diz Erik Brogger, um dramaturgo e professor adjunto de escrita criativa da Universidade Hofstra.

No começo, Brogger não era fã da peça. "Acho que as pessoas mais jovens não se sentem muito à vontade diante de tantas exibições de emoção", afirma. "Havia alguma coisa que parecia pouco natural nesses personagens exagerados." É que, no caso, as produções locais não eram nada satisfatórias. Basta procurar A Morte do Caixeiro Viajante no YouTube e você encontra todo tipo de encenação. A pior deve ser a paródia de Kevin Kline, no filme Soapdish (Segredos de Uma Novela), de 1991, em que, a certa altura, o ator, que se exibe numa peça enquanto os clientes do clube jantam, limpa a bebida derramada na mesa de um casal. Brogger acabou se apaixonando pela peça, e a levou para a classe.

"No início, me identifiquei com Biff", conta. "Depois, com a sensação de Willy de estar sendo traído por um mundo que ele já não compreende." O povo americano que trabalha hoje se sente "insultado, menosprezado. Portanto, embora ninguém saiba o que está dentro da maleta de Willy - aliás nem sabemos o que ele vende -, todos nós podemos nos identificar com a luta do caixeiro viajante".

Você é Philip Seymour na cena em que joga futebol americano com o ator Garfield. "Eu pensei: eles são atletas - eles nunca erram", afirma Nichols. A autenticidade o estimula profundamente. Hoffman aumenta o volume, mas muitas vezes o som ribomba profundamente.

"Às vezes, a representação mais poderosa de Phil é quando ele diz as falas mais simples", comenta a atriz Linda Emond. Ela está feliz com seu luxuoso camarim - "maior do que o meu apartamento" - porque Hoffman o passou para ela. É o lugar mais frequentado pelo elenco. É onde o pessoal relaxa. Dá risada. Muitas risadas. "No fim do espetáculo, a gente sente um grande alívio", ela lembra, "mas também a alegria de trabalhar numa grande peça, uma das maiores."

Mas apesar de sua grandeza, predominam os preconceitos. Miller achou desencorajador que vários críticos tenham "sorrido com desdém do simbolismo forçado de 'low-man' (homem deprimido)". Como explicou em sua autobiografia de 1987, Timebends - Uma Vida, na realidade Loman é o nome de um personagem - que grita 'Lohmann' - no filme de Fritz Lang de 1933, O Testamento do Dr. Mabuse. Lohmann, um delegado de polícia, não ouve o grito. "O que o nome realmente significou para mim", escreveu Miller, "foi um homem aterrorizado implorando no vazio por uma ajuda que nunca viria".

Nichols acredita na necessidade de se conhecer a verdadeira origem da peça, mas espera que essa produção transmita a ideia de novidade. A não ser, talvez, que você seja Philip Seymour Hoffman procurando apurar ao máximo este papel que é talvez o mais exigente do teatro americano.

É claro que, como diz seu amigo Mike, nós somos todos um pouco Willy. "Somos todos caixeiros viajantes", completa Nichols. "Veja, neste momento estou vendendo alguma coisa. Mas quem é que estamos enganando?" / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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