"Longa Jornada" reúne veteranos

A montagem de Longa Jornada de um DiaNoite Adentro, de Eugene O´Neill, clássico da dramaturgiaamericana, que estréia nesta quarta-feira, no Centro CulturalBanco do Brasil (CCBB), realiza sonhos e reúne veteranos quejamais estiveram juntos no palco. O diretor Naum Alves de Souza,autor de sucessos como Aurora da Minha Vida e No Natal aGente Vem te Buscar, diz que começou a escrever por paixão aeste texto. O ator Sérgio Britto, que vive o ator James Tyrone,o protagonista, conta que se preparou 26 anos para o personagem.E a atriz Cleyde Yáconis renunciou à elegância de seus papéis emnovelas, desgrenhou e embranqueceu os cabelos, para ser MaryTyrone, uma dependente química. "Este texto realiza o ator. É difícil, complexo, exigetudo de nós, emocional e fisicamente, mas é um presente porquevaloriza a interpretação e se baseia mais na palavra que emqualquer outro elemento de um espetáculo", ensina Cleyde, cujairmã, a lendária Cacilda Becker, viveu a mesma personagem numamontagem dos anos 60 que ficou na história. "Há desempenhosmemoráveis, além desse, mas não os levei em conta. Nem seriapossível, porque o momento é outro, os atores são diferentes e odiretor tem outra visão. Depois que o espetáculo estrear, vourever essas montagens como curiosidade, para saber que pontos asoutras atrizes destacaram." O texto é autobiográfico. Eugene O´Neill, um dos pais damoderna dramaturgia americana, era filho de atores e demorou aseguir a carreira dos pais. Já famoso, escreveu LongaJornada..., narrando um dia de uma família plena de conflitos."É um texto dilacerante, realista, embora tenha uma linguagemexpressionista e leve nossas emoções ao ponto em que o copotransborda", explica Sérgio Britto. "Há 26 anos, vi o filmecom a Katharine Hepburn sobre essa peça e pensei na Cleyde, masfoi bom esperar tanto para viver o Tyrone, um personagem que tempouco a ver comigo, apesar de sermos atores. Só que não me achovaidoso e realizei muito do que quis na vida, ao contráriodele." Essas realizações o levaram a ziguezaguear por entrevários gêneros de teatro. "Eu ganhei o rótulo de ator do teatrão, mas fiz também Gerald Thomas, George Lavelli e até Vitor Garcia, num espetáculo em que a gente ficava nu o tempo todo", enumeraBritto.Nos últimos anos, ele montou revistas musicais contandoa história do Brasil. Ainda não considera a série encerrada, masdecidiu ser só ator numa montagem. "É um refresco, mas um tantopesado. Longa Jornada... não tem a hora do chá, é uma peça emque o bisturi vai fundo e bem devagar." Naum Alves de Souza esperou 30 anos para dirigir a peça."Não é um texto para jovens. É preciso ter um histórico dedores e prazeres para entender o que O´Neill quis expressar",comenta. Ele também fugiu à tentação de atualizar ou adaptar apeça, que se passa nos Estados Unidos, em 1912, à nossarealidade. "Não quis ser maior que o autor. As únicasmodificações foram alguns cortes para reduzir o tempo de duraçãodo espetáculo. Originalmente. são cinco horas e agora tem poucomais de duas horas e meia." Família - Para viver os filhos do casal Tyrone, oalcoólatra James Jr., e o caçula, Edmund, foram chamados doisatores paulistas, Genésio de Barros e Marco Antônio Pâmio, poucoconhecidos no Rio. "O melhor desta montagem é a convivênciaentre o elenco e a produção. No palco há um desentendimentocompleto dessa família, enquanto nos bastidores, só harmonia",comenta Pâmio. "Naum faz tudo ficar mais suave. Ele nunca vemcom ares de revolucionário, mas é sempre inovador, tranqüilo",completa Barros. Longa Jornada... tem ainda Flávia Guedes como aempregada doméstica, um elemento apaziguador na família. É aestréia profissional da atriz, que se submeteu a testes paraganhar o papel. "Mas era a nossa preferida desde o início",ressalta Sérgio Britto. O espetáculo fica no Rio até outubro edepois vai para o CCBB de Brasília, onde permanecerá em cartazdurante um mês. A idéia é levá-lo para São Paulo no verão."Depois dessa montagem, quero voltar às revistas encerrando ahistória do Brasil, com a segunda metade do século 20", contaBritto. "Já estou ´cantando´ o Naum para escrever o texto."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.