Denise Andrade/AE
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Longa jornada de uma redenção

Na primeira vez em que conversei com Raquel ao telefone, ela não me contou seu nome. Nunca havia falado com jornalista. Achou que era trote. Não queria tirar foto que pudesse marcá-la, temia ser exposta como prostituta e nunca mais perder o estigma. Planejava uma saída silenciosa assim que juntasse algum dinheiro.

Pedro Doria, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2011 | 00h00

Soube de Bruna Surfistinha quando segui o link enviado por um amigo para o site no qual clientes de garotas de programa as resenhavam. Ela ocupava o número 1 no ranking, já a favorita do ramo em São Paulo. Sua maior qualidade: ser carinhosa. Bruna se destacava não pelas habilidades na cama, mas pela atenção tenra que dedicava aos clientes no depois.

O que faz uma grande história tem um quê de mistério. Na de Raquel, havia um conflito íntimo que, tive a impressão naquela primeira conversa, ela mesmo não havia percebido ainda. Era uma menina, não tinha 20 anos. Recebia uns cinco a seis clientes por dia. Se entregava emocionalmente a cada um. E se feria a cada saída construindo seu pequeno inferno particular.

A reportagem revelando Bruna Surfistinha ao Brasil saiu publicada no site NoMínimo em 16 de agosto de 2004. Teve chamada com destaque no iG. Nas semanas e meses seguintes, a história de Raquel, ainda Bruna, explodiu. Tocou alguma veia inesperada que atraía mais jornalistas e mais leitores.

E, nas semanas e meses seguintes, ela foi quebrando cada uma das promessas que havia feito para si mesma. Sua foto foi publicada. Fez um filme pornográfico. Abraçou cada oportunidade em revista ou TV. E não aumentava o preço, tinha pena dos clientes antigos que não poderiam mais pagar.

Só o que guardou para si foi seu nome.

Acompanhei a distância, com uma certa culpa, sua corrida alucinada. A cada foto, a cada declaração pública, ela se afastava mais da possibilidade de se entender com os pais adotivos. Seu inferno aumentava.

Foi pouco mais de um ano depois que conversamos pela última vez, em seu flat de Moema. O primeiro ano de fama foi difícil. Teve pânico de ir à rua. Cercou-se de pessoas que não a conheciam mais pelo nome real. Às vezes, quando pedia uma pizza de noite, estranhava dizer para o atendente que seu nome era Raquel.

E, no entanto, de alguma forma, encontrou uma saída.

Naquela última conversa, Bruna me contou que se chamava Raquel. Preparava-se para escrever um livro. Recuperou a própria identidade. Ao voltar a ser Raquel, transformou Bruna Surfistinha na personagem que era. Uma personagem que continuaria a explorar, mas sobre a qual agora tinha controle. Ao casar com um cliente, reinventou a própria vida.

O que faz uma grande história? Para mim, esta sempre foi uma história de redenção. De uma menina que se sentia sufocada em casa, que não viu saída que não partir para uma jornada. Desceu ao inferno, voltou outra.

O que fez desta jornada de Raquel tão difícil, e ao mesmo tempo transformadora, foi a quebra das regras da prostituição. Ela se entregava emocionalmente.

Isso não está no filme.

Mas o filme está na história de Raquel. Na pré-estreia paulista, ela era só sorrisos e choro. Estava feliz.

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