Longa aventura do homem com 'H'

Estudo francês, que deve ganhar tradução no Brasil da editora Vozes, acompanha a história da virilidade

Denise Bernuzzi de Santanna, O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2012 | 03h08

A história da virilidade é tumultuada e mal conhecida. Inúmeros tabus a silenciaram. Se o ato viril supõe coragem e força física, sua experiência encerra temores nem sempre vistos como "coisas de macho". Desde os heróis gregos da época de Péricles até os musculosos aventureiros exibidos pelo cinema hollywoodiano, a virilidade não cessou de mudar. Esteve associada aos militares, ao campo de batalha, mas também aos viajantes, piratas e aventureiros comuns. Penetrou as conquistas amorosas, as diversões masculinas em tabernas, prostíbulos e competições esportivas. Sua construção foi essencial aos governos e ao espetáculo do poder, entre nobres, burgueses e tiranos. Símbolo máximo da dominação masculina, a virilidade possui uma história reveladora do seu avesso e de suas margens: vulnerabilidade, medo de não de estar à altura de um cargo político, de falhar diante de um desafio, no trabalho e no amor.

A complexidade dos lugares e formas viris poderá ser mais bem conhecida agora, com a publicação na França dos três volumes de Histoire de la Virilité (Seuil), de Alain Corbin, Jean-Jacques Courtine e Georges Vigarello, obra a ser traduzida aqui pela editora Vozes, que dos mesmos autores já publicou no Brasil História do Corpo (2008).

Em seu primeiro volume, a História da Virilidade abre um longo terreno de invenções: modelos viris atravessam as experiências masculinas, da Antiguidade ao século das Luzes: heróis gregos, militares romanos, guerreiros medievais e combatentes modernos representam um másculo tripé formado por bravura, honra e glória. Mas a virilidade dos mercadores não era a mesma vivida pelos cortesãos. As diferenças do valor viril revelam as distinções entre nobres e pobres, letrados e incultos.

O segundo volume trata do apogeu da virilidade, entre os séculos 18 e 19. É quando este valor masculino se torna uma injunção moral. As diferenças entre homens e mulheres se complicam: o "sexo forte" se diferencia de uma suposta fragilidade feminina segundo um roteiro científico. Médicos associam a ausência de virilidade à degeneração das raças. Virilidade e formação nacional atualizam seus laços. O poder patriarcal é colocado em questão. Homossexualidade e masturbação se tornam mais problemáticas do que nunca. A obra revela também neste segmento as conquistas femininas e, ainda, os receios que lhes são correlatos.

O terceiro volume trata do século 20, quando a virilidade é colocada em questão de modo contundente: onde estão os verdadeiros machos? O homem de verdade seria mera lembrança de um passado heroico? Certamente as coisas são mais complicadas do que um suposto desaparecimento do valor viril. Nem o passado é feito apenas de bravura e honra, nem o presente é destituído de tais qualidades.

Os temas abordados neste volume ilustram com mestria essa complexidade: a virilidade se desdobra em modelos que vão do fascismo ao metrossexual, passando pelos esportistas e atingindo o homem comum. Mas ela também se torna um espetáculo cinematográfico, no western, no filme noir e nas eletrizantes aventuras da cultura de massa. Sonho e pesadelo dos homens, a virilidade não poderia deixar de ser a versão masculina de uma imensa caixa de Pandora. Seus mistérios começam enfim a ser amplamente pesquisados.


É PROFESSORA LIVRE-DOCENTE DE HISTÓRIA DA PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

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