Londres revê as muitas faces do mito Cleópatra

As muitas faces e lendas em torno da maior femme fatale da antigüidade, Cleópatra, rainha do Egito, é o centro de uma importante exposição recém-inaugurada em Londres. A vida espetacular de Cleópatra, repleta de romances escandalosos e lances refinados de estratégia, continua a despertar o fascínio das pessoas, cerca de 2 mil anos após a morte da soberana, como provou a presença de 6 mil pessoas no primeiro fim de semana da abertura da exposição: Cleopatra of Egypt: From History to Myth, no Museu Britânico, até 26 de agosto. O grande chamariz histórico da mostra fica em torno da exposição, pela primeira vez, de três cabeças gigantescas, esculpidas no período helenístico, e que foram resgatadas em 1997 do fundo do mar na frente do porto de Alexandria. Uma delas seria a imagem de Cesareon, o filho que Cleópatra teve do imperador Júlio César. Essas peças e outros tesouros expostos no Museu Britânico dão uma idéia da vida na capital real do império egípcio, assim como o impacto da cultura alexandrina na vida dos habitantes de Roma, onde Cleópatra viveu por dois anos, enquanto era amante de César. Mas foi com uma chamada digna de revista de fofoca, a chance de conhecer a verdadeira face, e bem longe de ser bela, de Cleópatra, que causou polvorosa. Representada no cinema por nomes como Claudette Colbert, Theda Bara, Vivien Leigh e Elizabeth Taylor, ao que parece Cleópatra VII, a última monarca da dinastia ptolomaica, estava longe de ser o que hoje chamaríamos de top model. Moedas cunhadas com a esfígie de Cleópatra, mostra uma mulher gordinha e de nariz longo e adunco.A mostra se concentra menos na possível feiúra da rainha e sim na sede de poder que ela demonstrava. Seu papel como líder de uma nação e de como ela dobrou o império romano é que dominam o evento, numa tentativa de investigar e acompanhar as artimanhas e o raciocínio de Cleópatra. A mostra do Museu Britânico (famoso pelo seu acervo de múmias egípcias) busca salientar sempre a grande política que Cleópatra era. Mais do que devoradora de homens, Cleópatra era uma mestre em estratégia que acertou em cheio ao mergulhar na cultura egípcia, se tornando a única monarca da dinastia dos ptolomeus (de origem macedônica) a falar a língua do povo e a abraçar os deuses egípcios. Por intermédio da contextualização das peças expostas, esculturas colossais, máscaras, jóias, objetos de cerâmica e moedas, é possível compreender como a própria Cleópatra se ocupou de criar o próprio mito em vida. Um talento para a autopropaganda e que atravessou as fronteiras de seu império. Seu poder de sedução era tal que Cleópatra teve, aos seus pés, dois dos maiores líderes romanos de sua época: o imperador Júlio César e o general Marco Antônio, produzindo herdeiros dos dois, escandalizando todo um império, enquanto garantia sua supremacia de rainha do Egito. A exposição do Museu Britânico mostra as diversas formas em que o mito de Cleópatra foi visto através dos tempos e por diversos pontos de vista. Para os egípcios, ela era a personificação dos deuses e a mostra reúne sete estátuas da rainha do Egito feitas no mesmo estilo das esculturas das divindades egípcias. Seus adoradores a comparavam à deusa Ísis. Seus detratores a viam como uma devassa. Uma imagem de Cleópatra tendo relações sexuais com um crocodilo teria sido usada para desacreditar a rainha que, ao mesmo tempo, era homenageada por Júlio César com uma estátua de ouro colocada no fórum romano. Cleópatra foi a primeira celebridade feminina na história e uma governante com ambição política e imaginação ilimitadas na hora de defender seu reino. Sua vida tem lances tirados de uma história fantástica. Nunca ninguém saberá, ao certo, se foi verdade que ela entrou escondida, enrolada num tapete, no palácio de Júlio César. Ou ainda, se ao ver que o seu império caía nas mãos inimigas do imperador Otávio, ela realmente se matou, ao se deixar picar por uma cobra venenosa. Que governante hoje ousaria tanto?

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