Londres, capital do século 18

Às vésperas da Inconfidência Mineira, o patriarca letrado mandava o filho adulto estudar na Europa. Lá ele tinha contacto com pessoas e ideias que enegreciam os fantasmas pátrios. Matriculado na Faculdade de Medicina de Montpellier (França), Vendek, codinome do futuro inconfidente Maia e Barbalho, se atreve a enviar carta a Thomas Jefferson, então presidente dos Estados Unidos. Ela se tornaria documento-chave na historiografia brasileira. Escreve o acadêmico carioca: "O senhor sabe que minha pátria geme numa escravidão abjeta que, desde o momento da gloriosa independência norte-americana, se torna cada vez mais insuportável." Nas últimas linhas, conjura: "É preciso fazer nossa liberdade reviver." O resto está nos volumes dos Autos de Devassa (encontrados em sebos ou em bibliotecas).

Silviano Santiago, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2010 | 00h00

O exemplo é instrutivo na avaliação do livro de Julie Flavell, When London Was the Capital of America (Yale University Press, 2010), que recobre o dia a dia de abastadas famílias de colonos norte-americanos que, antes da Declaração da Independência, em 1776, elegem Londres como morada. Associados aos pares das colônias britânicas no Caribe, fazendeiros sulistas e comerciantes bostonianos, suas esposas, filhos e escravos domésticos se instalam na capital do século 18. A publicação de documentos pessoais e os estudos especializados em História se multiplicaram. Flavell nos entrega a preciosa síntese, hoje indispensável aos estudiosos do período colonial. Ao final do livro, bibliografia e notas são tão úteis quanto o texto.

Em 1771, chega a Londres Henry Laurens, de 47 anos, viúvo e abastado rizicultor sulista. Vem com a intenção de dar boa educação a Henry e John, filhos menores. Em casa de parentes, ficaram Patsy e Mary. A família senhorial se faz acompanhar do escravo Scipio, que tinha prometido bom comportamento, e se incorpora a outras 50 famílias sulistas, já residentes. Elege morar em pleno coração da aristocracia e da burguesia londrina, em casa próxima de Downing Street. Henry e John são logo matriculados em escola bem conceituada e terão Scipio como acompanhante (footman-valet). Naquela década, são 15 mil os negros em Londres. Sobressai a figura de Soubise, o ex-escravo caribenho então favorito da duquesa de Queensberry.

Até as guerras da Independência americana, o clima reinante entre os colonos abastados e distantes da pátria é o de imitação dos valores da burguesia londrina. O futuro inconfidente ia estudar em Portugal ou na França e viajava só. A palavra "liberdade" é chave mestra na fala e nos escritos do brasileiro europeizado. A indispensável rebeldia na pátria ausente contrasta com a busca do bem-estar cosmopolita para o viúvo e os filhos menores, órfãos de mãe.

Para os Laurens, Londres não era cidade estrangeira. Às famílias dos fazendeiros de tabaco e de arroz, moradores no West End londrino, somam-se os escravos africanos, que logo se associam aos serviçais remunerados e sorriem à espera da gorjeta (vails) dos senhores. Aos estudantes folgazões e boêmios se somam os comerciantes ianques, dispostos a se tornarem mais ricos na metrópole. Aos deslumbrados artistas e cientistas provincianos se somam os caubóis (frontiersmen), que já então encantavam as multidões. Os especuladores imobiliários americanos dominam Whitehall. Antes de ser muralha, o Atlântico é autoestrada, mais rápida que os caminhos regionais na pátria.

Do capítulo Escada Acima, Escada Abaixo, desentranhemos Scipio e demais africanos em Londres. O escravo doméstico fica mais em conta para os colonos que o criado inglês, embora pudesse transformar-se em arma temível. Segundo sir John Fielding, ao se inserir entre os semelhantes britânicos, ele "se intoxica com a sensação de liberdade e espera salário" e, de volta às fazendas do Sul, "inspira insurreições". A viagem serve-lhe também para que mude o nome. Scipio, por exemplo, descobre que o hábito sulista de dar nome romano a escravo já é piada nos jornais londrinos. Nas charges, lê-se: "Domiciano, mate-me aquela mosca", ou "Pompeu, engraxe meus sapatos". Scipio se autonomeia Robert Laurens. A decisão é assumida pela família senhorial e dá a impressão de não ser ele escravo, mas um agregado obediente.

Seguem-se tópicos fascinantes. No dia a dia, o escravo revê a noção de miséria humana. Em carta, um dos fazendeiros diz que o preto "aprende aqui a desprezar o branco", já que o pobre sobrevive a caminho da fome e traz o corpo malcheiroso e em declínio físico. Gravuras e textos escolhidos pela autora não o desmentem. Apesar de interditado nas colônias, o casamento inter-racial é comum entre os escravos e a criadagem branca. O rizicultor Laurens discorre sobre o desgosto que sente ao ver tantas crianças mulatas pela cidade. A febre (gust) da mulher branca pelo homem preto lhe é incompreensível. Apesar de as leis britânicas estipularem que só o criminoso é passível de detenção, o escravo fugido faz renascer em Londres o capitão-do-mato. Como ele não tem o direito de meter o preto no xilindró, embarca-o de volta no próximo vapor.

Granville Sharp, um mero funcionário público, se transforma em defensor dos escravos a partir de 1765. Chega à clínica do irmão o escravo Jonathan Strong, completamente desfigurado em virtude das coronhadas que recebera do senhor, David Lisle. Dois anos depois, já refeito, Strong é raptado por Lisle, que o manda encarcerar por crime. Granville decide levar o caso ao prefeito (lord mayor). Este inocenta Strong. Concluiu-se: "A lei inglesa não reconhecia a escravidão."

A revolução americana não teve como objetivo inicial a independência, mas a conquista de maiores direitos para a colônia dentro do império. A partir de outubro de 1775, quando o rei declara que os rebeldes lutam pela independência, não se perseguem abertamente os colonos na metrópole. Conclui Flavell: "Numa nação que se orgulha do amor pela liberdade, prevalece a regra da lei." Houve presos, mas não há execuções nos cadafalsos de Tyburn ou da Torre de Londres.

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