Lolita sem burca

O título chamativo da autobiografia da iraniana Azar Nafisi, Lendo Lolita em Teerã (Bestbolso, 2009) extraviou por duas vezes meu desejo de lê-la. Ali mencionado, o já clássico romance de Vladimir Nabokov é exemplo de obra cuja leitura seria a priori proibida em Estado religioso, já que narra evidente caso de pedofilia heterossexual. Um velho professor se apaixona por uma ninfeta, Lolita, assedia-a e a possui. No contexto da revolução islâmica, a leitura do romance de Nabokov parecia-me óbvio contrassenso. Perda de tempo.

SILVIANO SANTIAGO, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2010 | 00h00

Por vontade própria, Azar Nafisi se demitira do posto de professora na Universidade de Allameh Tabatabai. No auge da revolução dos aiatolás, organizou um salão de leitura em casa, de que participavam sete ex-alunas. O grupo de estudos se dedicava à discussão semanal dos clássicos da literatura ocidental. A autobiografia narra essa experiência. Ainda por vontade própria, Azar se autoexilou nos Estados Unidos, onde é professora na Universidade Johns Hopkins. O livro estaria narrando mais um aprendizado em diáspora política, possivelmente com happy ending.

Dois equívocos meus. Procuro desfazê-los publicamente. Por Azar ter aclimatado uma obra-prima da ficção ocidental no contexto político e religioso oriental, merece destaque o primeiro e longo capítulo de Lendo Lolita em Teerã. Merece-o por ter a autora orientado o Ocidente pela rotação da terra em torno do sol, como dizem os versos de duplo sentido na canção Oriente, de Gilberto Gil. Sob o olhar iraniano, Lolita perde e ganha outro sentido. Não se excluem as leituras literárias feitas dentro e fora do Ocidente. Somam-se e esclarecem. A prova está no longo capítulo em que as oito mulheres iranianas debatem o romance maldito de Nabokov.

As análises de dentro e de fora do Ocidente melhor se somam porque Azar sabe que, ao transformar uma grande ficção em mera cópia da vida real, o leitor a está menosprezando. O que se busca, na leitura da obra literária, é "a aparição súbita da verdade". Mais reveladora será a verdade poética, se ela desenraizar o leitor do seu conforto doméstico. Azar cita uma frase de Theodor Adorno, que lhe serve de guia: "A mais elevada forma de moralidade é a de não se sentir em casa quando se está em casa". A melhor ficção, continua ela por contra própria, "questiona as tradições e as expectativas quando parecem imutáveis".

À primeira vista, o que está em pauta na leitura muçulmana de Lolita é a ausência dos conceitos ocidentais de maioridade feminina e de pedofilia heterossexual. No mundo muçulmano, é permitido o casamento e a relação carnal entre um homem mais velho e uma menina, desde que já menstruada. As leituras censórias do lado de dentro do Ocidente e do seu lado de fora batem em teclas semelhantes, mas de sinal invertido. No Ocidente, o vilão da narrativa de Nabokov é o velho professor, um "predador", segundo toda leitura que acolha a verdade expressa no Código da Criança e do Adolescente. Em Teerã, o vilão da narrativa é Lolita. Menina e moça de grande beleza e sensualidade que, por não dissimular com tecido os encantos físicos, enfeitiça os homens à sua volta. "Depravada" é como a qualificam os críticos oficiais iranianos.

Predador e depravada, atribuídos pelos censores, respectivamente, ao professor e à ninfeta, não são suficientes para a boa apreciação do drama humano apresentado no romance. Apenas indiciam um buraco negro, inapreensível a olho nu, de que se serve Azar Nafisi para nele revelar o problema existencial da mulher, dramatizado de modo radical em Lolita - o da sua impotência absoluta. Ao constatá-la no salão de leitura iraniano, a narradora observa que o velho professor "impede Lolita de conviver com crianças da idade dela, vigia-a para que jamais tenha um namorado, amedronta-a para manter segredo, suborna-a com promessas de dinheiro para terem relações sexuais, e revoga-as depois que consegue o que quer".

De maneira mais escandalosa, alerta Azar, o drama vivido por Lolita indicia o problema existencial de todo e qualquer cidadão, homem, mulher ou criança, que tenha as possibilidades infinitas de vida confiscadas por outro.

Lido em Teerã, o drama sentimental exposto em Lolita ganha dimensões épicas. Com rara felicidade, Azar Nafisi desentranha dele uma figuração política e religiosa que busca valor universal. Chama-a de solipsismo. O dicionário filosófico informa que solipsismo é a doutrina segundo a qual só existem, efetivamente, o eu e suas sensações, sendo os outros entes meras impressões sem existência própria. Observa Azar que o solipsista quer moldar os que o cercam segundo seus sonhos e seus desejos.

Pelo drama do velho professor às voltas com Lolita, Nabokov encena o modo de ação política e religiosa de todo solipsista. Em lugar de governar os humanos, ele cria "uma massa desenraizada e inorgânica", para usar as palavras de Hannah Arendt em análise dos regimes totalitários. O cidadão perde "o mundo", ou seja, o sistema de referências que o ser humano constrói em torno de si, atribuindo, em função do que faz, sentido a certas coisas e a outras pessoas.

Em resumo das teses de Hannah Arendt, Jorge Grespan informa que a perda do "mundo" com que dialogar implica a perda da capacidade de pensar (Pensamento Alemão no Século XX, Cosac Naify, 2009). Lido em Teerã e relido por nós, ocidentais, Lolita abala os alicerces de autocracias lideradas por falocratas, ou solipsistas. Seria esse abalo uma tranquila vontade universal? Não o é ainda. Não o será?

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