Lobo na Idade Média. Conheça outros livros de Janaina Tokitaka

Janaina Tokitaka vai buscar as origens do lobisomem para recriar sua lenda

BIA REIS, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2012 | 03h09

O pincel embebido na aquarela toca o papel e o desenhista faz um movimento intencional. Depois, cabe ao acaso definir os caminhos que as cores percorrerão. Elas se esparramam, então, pela folha, deixando umas áreas escuras, outras mais claras. O pincel volta à aquarela e, inesperadamente, os tons se misturam e criam, muitas vezes, o que nem o autor pensou em inventar.

É com essa técnica, que mistura a intenção com o imprevisível, que a escritora e ilustradora Janaina Tokitaka vai compondo a sua história. Formada em Artes Plásticas pela Universidade de São Paulo (USP), Janaina, de 26 anos, mergulhou cedo no mundo das ilustrações. "Era daquelas crianças que preenchiam o caderno de desenho na praia", se diverte ao lembrar.

Em seus livros para crianças e adolescentes, Janaina mescla aquarela com outras técnicas. Para criar a atmosfera de medo e suspense em O Lobo do Centeio, ela usou guache, grafite e nanquim. A obra - a sétima que escreve e ilustra - é difícil de ser definida. Mistura de história em quadrinhos com livro-imagem. "Essa indefinição me incomodava, mas já fiz as pazes com a indecisão do livro."

Nesta releitura da história do lobisomem, a escritora retoma a lenda em sua forma mais tradicional, mantendo aspectos bem conhecidos, como o foco no gênero masculino e a influência da lua cheia, e outros existentes em versões arcaicas que foram sendo abandonados com o passar do tempo. "Fui atrás de pedacinhos, de fragmentos. Encontrei a narrativa de uma praga que deu num campo de centeio na Idade Média, o caso de um lobo que atacou um vilarejo. A imagem que temos hoje do lobisomem é de uma pessoa que sofreu uma maldição. Mas descrevo mais um demônio do que um ser humano, uma coisa ligada ao lado selvagem na natureza, do perigo."

As cores acompanham o desenrolar da história. Conforme a maldição toma conta do vilarejo, o verde claro vai sumindo, dando lugar a tons mais escuros, ao cinza, ao preto. O texto é conciso, preciso, mas não simplista. "É a linguagem dos quadrinhos, mais próxima da do cinema."

Janaina tem preocupação estética com as palavras, com o ritmo. Ela leva o leitor para dentro do texto, provoca sensações. "O vilarejo cheirava permanentemente a centeio - um aroma maltado e ensolarado que se impregnava na roupa dos homens que vinham da lavoura e na pele das mulheres que assavam pães e fermentavam a cerveja. Até as crianças pareciam feitas do cereal depois de rolarem pelos montes feitos de grãos, seus cabelos finos embaraçados pelas hastes da planta", conta, logo no início da narrativa.

Para Janaina, a descrição sensorial ajuda a envolver o leitor. "Ele precisa se sentir dentro da história para que ela possa tocá-lo."

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