Lobo mau

Prokofiev finalizou sua história de um jeito pacifista, seguindo ideais do conterrâneo Tolstoi

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

28 Janeiro 2017 | 02h00

Eleitores americanos e ingleses resolveram frear a maior revolução econômica dos últimos tempos, a globalização, que representou a vitória do mundo livre, do livre mercado, contra o determinismo histórico, o comunismo. Escolheram líderes que protejam suas fronteiras, ergam barreiras, muros, e os blindem da ameaça do outro, do desconhecido, do estrangeiro.

 

A abertura econômica parecia lógica, como a divisão de um bem comum, a capacidade humana, a distribuição de riqueza, o barateamento do consumo, a melhora da qualidade dos produtos. O símbolo maior dessa vitória foi a China, o mais comunista de todos, país que mais se beneficiou com a globalização.

O arquétipo do lobo mau, o monstro perigoso e traiçoeiro que se esconde na floresta e quer nos comer, sobrevive no mundo contemporâneo, tecnológico. Quem tem medo do lobo mau? A maioria dos eleitores americanos e ingleses.

Me estranhou uma versão contemporânea de Pedro e o Lobo, que vi num teatro de São Paulo. A música de Prokofiev continua absurdamente deslumbrante. O lobo continua mau. Porém, ao final, o lobo não era morto pelos caçadores, mas levado a um zoológico. Seria uma releitura politicamente correta do clássico infantil de 1936? Ou um prenúncio do que aconteceria em breve a opositores levados a campos de trabalho forçado em Gullags e campos de concentração?

Estranho, pois em quase todos os contos de fadas, o lobo é morto. Na versão de Joseph Jacobs de A História dos Três Porquinhos, que reuniu contos e fábulas mandadas por leitores de sua revista na Inglaterra, ele vira um cozido numa panela, que alimenta o terceiro porquinho, o da casa de alvenaria; cena bem estranha, um porquinho comendo um lobo no jantar. Que viveu feliz para sempre.

Na versão de Charles Perrault de Chapeuzinho Vermelho, um dos primeiros a registrar lendas infantis, ainda sob o reinado de Luís XIV, a menina desobediente, que não seguiu os conselhos da mãe, foi assustadoramente comida pelo lobo mau, que já tinha devorado a avó dela “num piscar de olhos”. E ponto final. O lobo saía livre e contente. E viveu feliz para sempre.

Já a versão dos irmãos Grimm conta outra história. A moral é a mesma: não se desvie do caminho, mesmo que flores coloridas a seduzam, menina de vermelho, pode a maldade se jogar sobre você. O lobo come a vovozinha e o chapeuzinho. Satisfeito, dorme pesado.

 

Mas um caçador que passava pela floresta escutou um ronco suspeito e encontrou aquele que caçava dormindo na cama da vovozinha. Não o matou. Abriu sua barriga, pois imaginara que ele tinha engolido a pobre velhinha. Resgatou-a com sua netinha. Mataram o lobo. O caçador esfolou-o e levou a sua pele para casa. Não cozinharam. Vovozinha comeu o bolinho que a neta lhe trouxera e bebeu vinho.

Prokofiev voltara do exílio a uma União Soviética dominada por Stalin, que lhe prometeu mundos e fundos para compor o que quisesse, num teatro em Moscou à disposição. Atravessou uma Europa prestes a ser dominada por Hitler. O sangue da Primeira Guerra e da Revolução Russa ainda não coagulara. Países armados até os dentes esperavam pelo pior. E ele, mesmo assim, finalizou sua história de um jeito pacifista, não violento, seguindo os ideais do primeiro hippie da humanidade, o conterrâneo Liev Tolstoi. Em Pedro e o Lobo, o lobo não é morto. É poupado.

O lobo deve ter sido uma ameaça assustadora aos povos do norte. Muitos animais devem ter devorado filhos de famílias que viviam próximas de seu hábitat, as florestas. Lobo fascina até crianças brasileiras, apesar do nosso lobo-guará, que mais se parece um cachorro-do-mato amarelo, não assustar ninguém; ao contrário, está em extinção; aliás, como seus parentes do norte.

Perguntei, certa vez, numa roda de especialistas, qual o sentido do arquétipo do lobo sobreviver num país tropical que não o conhece. Sem precisar consultar Jung ou o clássico dos anos 1970, de Bettelheim, A Psicanálise dos Contos de Fadas, me explicaram da importância de se difundir os perigos do mundo exterior, fora do conforto do lar, para as crianças.

Políticos vêm usando a mesma tática perversa há séculos. O inimigo é o outro. O inferno é o outro. O lobo se esconde em outra etnia, acredita em outros deuses, profetas, vive do outro lado do rio, da nossa fronteira, fala outra língua, quer nos roubar, nos violentar. Se não o eliminarmos, seremos comidos. 

O próximo passo é começarmos a achar que o inimigo está dentro de nós, ou, pior, somos nós mesmos. Costuma acontecer quando se descobre que o lobo mau é um conto de fadas. 

E o país se divide. Demora para entender que talvez o lobo mau não seja o outro, mas parte de nós mesmos.

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