Loach põe dedo na ferida chamada guerra do Iraque

CANNES

, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2010 | 00h00

Houve corpo a corpo entre os críticos, na sessão de imprensa de Route Irish. O novo Ken Loach foi selecionado para a competição na segunda-feira da semana passada, a dois dias do começo do festival (na quarta). A sessão ocorreu na menor das salas do palais. Haverá outra hoje, a oficial, e a coletiva será realizada somente amanhã.

Route Irish arrisca-se a provocar cizânia nas hostes de admiradores fiéis de Ken Loach. O cineasta quis fazer um thriller sobre a Guerra do Iraque, o seu Zona Verde, como o filme de Paul Greengrass com Matt Damon. Zona Verde não merece um décimo dos elogios que andou recebendo, aí no Brasil, inclusive. Ken Loach é melhor, justiça seja feita.

Seu filme mostra este mercenário que serve às forças especiais no Iraque, na verdade um eufemismo para grupos que agem acima ou à margem da lei, a serviço do interesse das corporações. A tese de Ken Loach é a mesma, no fundo, de Michael Moore em Fahrenheit 11 de Setembro. Os norte-americanos e seus aliados invadiram o Iraque não por causa de armas nem para resgatar a democracia no país dominado por Saddam Hussein. O objetivo era destruir o Iraque para ganhar dinheiro reconstruindo o país.

Na história, um desses soldados da fortuna enterra o melhor amigo. Por meio de um celular que o cara lhe enviou secretamente, ele descobre que o amigo foi morto porque sabia demais num caso que poderia comprometer os interesses pecuniários desses "reconstrutores" do Iraque. Seu objetivo passa a ser a vingança e, para tornar as coisas mais complicadas, Ken Loach e seu roteirista, Paul Laverty, imaginam que esse homem seja secretamente apaixonado pela mulher do "buddy" (e ela retribui).

Embora tudo ? a forma e o fundo ? permita relacionar Route Irish com Zona Verde ? um Zona Verde melhorado ?, não é exagero pensar que Loach tenha feito reviver, na Croisette, o espírito reformista do velho Costa-Gavras. Habitué de Cannes, Ken Loach já ganhou a Palma de Ouro e tem vindo aqui com frequência. Seu thriller militante encerra-se com uma bomba. Justamente em matéria de bombas, a que Loach lançou aqui mesmo, em 1990, com Agenda Secreta, era mais forte. / L.C.M.

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