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Lloyd George

Foi o escritor inglês H.G. Wells quem chamou a Primeira Guerra Mundial de "a guerra para acabar com todas as guerras" e foi outro inglês, David Lloyd George, quem disse que ela era a guerra para acabar com todas as guerras e que a próxima também seria. Desde então a humanidade vive entre a esperança de Wells, para quem o mundo certamente aprenderia a jamais repetir a barbaridade da Primeirona, e o cinismo fatalista de Lloyd George, que no final tinha razão. A estupidez humana mostrou ser mais forte do que qualquer apelo racional e a Segunda Grande Guerra foi uma continuação da Primeira, só com armas mais mortais, culminando com as bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, a mais violenta agressão de um país a outro na História. E não é preciso ir mais longe do que o noticiário de hoje para ver que uma das características da estupidez humana é a reincidência.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2014 | 02h06

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Outra do Lloyd George. Como primeiro-ministro britânico no fim da Primeira Guerra, reuniu-se com o premier francês George Clemenceau e o presidente americano Woodrow Wilson, em Versalhes, para discutirem o que fazer com a derrotada Alemanha. Clemenceau e Wilson queriam uma punição mais forte, Lloyd George defendia um castigo mais brando. Na volta de Versalhes, lhe perguntaram como ele tinha se saído na reunião e ele respondeu: "Bem, levando-se em conta que eu estava entre Jesus Cristo e Napoleão".

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Mas a ironia e o discernimento abandonaram Lloyd George quando ele foi a Berlim conversar com Hitler, que começava a dar os primeiros sinais de que o espaço vital que reclamava para a nova Alemanha, o "lebensraum", iria incomodar os vizinhos. E Lloyd George voltou cheio de admiração pelo espírito que sentiu no povo alemão, inspirado pelo Führer. Pior: botou suas boas impressões no papel, e elas voltaram para atucaná-lo muitas vezes no resto da sua vida. E ironia mesmo foi o fato de Hitler e o nazismo serem, indiretamente, crias do tratado de Versalhes e do ressentimento alemão pelas reparações exigidas pelos vitoriosos na Primeira Guerra, com a assinatura contrariada de Lloyd George.

Agradecimento. Somos uma espécie irracional e sem salvação, mas há o que nos redime. A coisa mais bonita feita no Brasil, depois de algumas igrejas barrocas e da Patricia Pillar, é a música Senhorinha, do Guima e do Paulo César Pinheiro, cantada pela Mônica Salmaso. E agora foi lançado um disco só com músicas da dupla na voz límpida como água de vertente da cantora. Nós não merecemos, mas agradecemos de coração.

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