Livros relembram o fascinante mundo de Fellini

Fazer um Filme, Fellini ? Parole e Disegni e Le Favole di Fellini. Três livros que são deliciosos em si mesmos. Mas, além disso, podem enriquecer a experiência incomparável de ver os filmes de Fellini. São guias, assistemáticos, para se orientar no mundo criado pelo diretor. A este mundo cabe o adjetivo "fascinante"? Cabe. Porque Fellini tinha consciência da magia que reveste, ou deveria revestir a arte cinematográfica. A contrapartida dessa vocação de taumaturgo, de ilusionista de feira, é a modéstia com que Fellini, repetidamente, se refere, comenta ou analisa o seu métier, nesses três volumes que são, afinal, livros de depoimentos. Le Favole di Fellini é a versão em livro do documentário homônimo. É também assinado por Paquito Del Bosco, que realizou as pesquisas na RAI (Rádio e Televisão Italiana), selecionou as entrevistas e editou-as. Acompanha o livro um CD com os principais trechos. Ouvi-los, na voz de Federico, aquela voz fininha, desproporcional em relação ao seu tamanho físico, zombeteira, auto-irônica, é um prazer a mais. Fellini era um gozador. Isso todo mundo sabe. Fazia a delícia de jornalistas em busca de uma boa história, uma anedota, uma frase espirituosa. Por exemplo, na entrevista concedida em Cannes, em 1960, quando concorria com A Doce Vida, ele comenta as reações ao filme. Alguns lhe perguntam porque o personagem Steiner havia se suicidado depois de matar os filhos. Um espanhol manda uma carta dizendo que não se conhecia aquele espécime de peixe em toda a costa do seu país. O espanto refere-se a uma das cenas finais de A Doce Vida, quando Marcello Mastroianni vai para a praia em companhia de seus amigos farristas e todos ficam surpresos com uma espécie de monstro marinho preso na rede dos pescadores. O espanhol pedia ao cineasta o favor de lhe enviar um exemplar daquele estranho ser. Por último, conta Fellini, foi abordado por uma senhora de nariz revestido de ouro que lhe perguntava, com sincera indignação, por que ele nunca colocava uma única pessoa normal em seus filmes.Nem tudo é apenas engraçado nas entrevistas de Fellini. Há algumas delas realmente sérias e esclarecedoras. Como, por exemplo, aquela concedida a Fernaldo di Giammatteo no programa Registi al Microfono, em que Fellini fala de seu aprendizado com Roberto Rosselini. São páginas de beleza exemplar, nas quais Fellini confessa que seu aprendizado, com o mestre, foi tanto técnico quanto humano. Um aprendizado também do país, que saía arruinado da guerra. O futuro diretor, ajudando a fazer obras-primas como Roma Cidade Aberta e Paisà, aprendia a decifrar sua terra, a ver o rosto dos seus concidadãos, escutar o modo como falavam, seus sonhos, seus medos. Tudo isso foi fundamental para o artista que se formava. Parole e Disegni é mais, digamos, assim, intimista. Transcreve as conversas entre Fellini e o jornalista Vincenzo Mollica, que assina o livro. Traz, de quebra, alguns desenhos inéditos que o cineasta fez para o amigo. Descreve os encontros de Fellini com os cartunistas Charles Schulz e Manara. E há os depoimentos maravilhosos. Num deles, um motorista de taxi, em Nápoles, descobre que estava conduzindo o diretor de Oito e Meio e dá a sua opinião: ?Doutor, me desculpe, mas não entendi p... nenhuma.? Segundo Fellini, era a melhor crítica jamais feita ao filme. Alguns depoimentos são exemplares. Como aquele sobre Disney. Fellini confessa toda a sua admiração pelo norte-americano, o que é sincero, pois todos sabem da afinidade do cineasta com os fumetti, as histórias em quadrinhos. Sinuoso, confessa inveja pelo senso prático de Disney e sua capacidade para o trabalho de equipe. Finaliza: ?Talvez seja isso o que ele tinha de melhor, o talento para tirar o melhor de cada um dos seus colaboradores.? É mais enfático ao falar sobre Chaplin. Disse que seria como falar sobre a própria vida. E lembra da cena final de Luzes da Cidade (quando o vagabundo encontra a cega, que recuperou a visão graças a ele) como a ?seqüência que consegue transmitir o sentido da natureza humana da maneira a mais sugestiva e tocante?. Dos três, Fazer um Filme, o único disponível em português, é o que mais se aproxima de uma autobiografia intelectual ? sempre à maneira anárquica do autor. No livro, Fellini fala de sua infância e juventude em Rimini, do início da vida profissional como caricaturista, a atuação na imprensa, até seu encontro com o cinema. Uma rememoração bem-humorada, de quem se sente em paz com a vida e consigo mesmo. Certas revelações permitem ao cinéfilo se orientar melhor pelo infinito planeta Fellini. Por exemplo, quando ele diz que a idéia básica a ser aprofundada em Oito e Meio era o da essência feminina. Daí a profusão de mulheres presentes no filme. Daí a fantasia do harém, etc.Igualmente esclaredor é o processo de adaptação de Satyricon, o clássico da decadência romana escrito por Petrônio no início da era cristã. Para quem tinha alguma dúvida, Fellini a dissipa: sentiu-se atraído pela época descrita por Petrônio porque ela lhe parece tão bárbara e decadente quanto a atual. Ao mesmo tempo, são agudas as suas reflexões sobre a natureza dos filmes históricos. Como se reconstrói uma época perdida no tempo? Para ele, isso é impossível: ?(Satyricon) não é um filme histórico, mas de ficção científica.? Qualquer pretensão de realismo seria risível, pois é impossível apagar de nossa consciência 2 mil anos interpostos de história e de cristianismo. Tudo é reconstrução. Tudo é arqueologia e busca (frustrada) de sentido. Mas esse é o impulso que leva a fazer um filme. Ou simplesmente, a viver.

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