Livros que viram jogos que viram filmes...

Livros que viram jogos que viram filmes...

Títulos criados para vários formatos começam a ganhar tradução no País

Raquel Cozer, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2010 | 00h00

A primeira grande editora a arriscar foi a americana Scholastic, em setembro de 2008, quando Harry Potter já era coisa do passado. Lançou o primeiro dos dez títulos da saga infanto-juvenil The 39 Clues, mas não só nos livros ela transcorria. A fabulosa caça ao tesouro migrava para um jogo online, continuava em cartões colecionáveis e incluía pistas que levavam ao mundo real.

Por aqui, a editora Ática comprou os direitos e acaba de traduzir o segundo volume, Uma Nota Errada, além de manter no endereço www.the39 clues.com.br a versão em português de seus complementos virtuais. Outro romance do gênero publicado há pouco no Brasil, embora de conceito bem mais simples, é Grau 26 (Record). Foi escrito pelo criador do seriado CSI, Anthony Zuiker, e é intercalado por vídeos que ajudam (ainda que não sejam de fato necessários) a acompanhar a trama.

O conceito de narrativa transmídia, com histórias cujo conteúdo se desdobra em plataformas como livro, vídeo e game, vem sendo muito falado entre internautas nos últimos anos, mas os dois títulos citados estão entre os poucos de fato pensados para o formato a ganharem tradução por editoras brasileiras.

Na terça-feira passada, quando o expert em transmídia norte-americano Jeff Gomez terminou de apresentar seus projetos no 1.º Congresso do Livro Digital, em São Paulo, sentiu falta de uma reação mais animada por parte dos editores e livreiros que lotavam o teatro do hotel Maksoud. "Vamos lá, façam perguntas. Sou de Hollywood!", brincou, na tentativa de quebrar o gelo. CEO da Starlight Runner Entertainment, Gomez trabalha com franquias como Piratas do Caribe, Avatar e Príncipe da Pérsia.

"Os editores brasileiros estão apenas começando a ter contato com a ideia, então pode demorar um tempo até estarem prontos", disse ao Estado, ao fim da palestra. "Conversamos com empresas nos EUA faz vários anos, e muitas ainda têm medo."

Seja como for, os leitores brasileiros podem se preparar para algumas iniciativas do tipo num futuro próximo. Ainda neste mês, o selo Quadrinhos na Cia. publicará um volume com dois capítulos da graphic novel Scott Pilgrim Contra o Mundo. A série, cujo nome saiu de uma música (do grupo canadense feminino Plum-tree), terá versão em filme no cinema, quando também sairá um game baseado na trama.

A possibilidade de explorar conteúdos que se multiplicam incentivou o americano Mark Warshaw e o brasileiro Mauricio Mota a criarem, no meio do ano passado, a agência The Alchemists, com escritórios no Rio e em Los Angeles. Os produtores e sua equipe têm uma série de trabalhos engatilhados para desenvolver no País, incluindo uma parceria com a Rede Globo.

Uma das prioridades da empresa ainda nem saiu no mercado norte-americano. Trata-se de Shift, sequência de livros cuja matéria-prima são as teorias da conspiração e que tem coautoria de Tim Kring, criador do seriado Heroes. Outro contrato fechado, segundo Mota, inclui uma criação de um autor brasileiro, cujo nome ele ainda não divulga.

Tendência. É certo que o conceito de transmídia é amplo, podendo abranger um cenário bem maior. A própria série Harry Potter migrou para o cinema, mas só depois de começar a fazer sucesso - não foi criada para isso. Gossip Girls também evoluiu para outros formatos apenas depois do lançamento. Foi essa série que fez da independente Alloy Entertainment uma grande empresa. Após a Alloy criar o piloto de um programa de TV, chamou a atenção da Warner, que pôs a trama no ar. A tendência, acredita Gomez, é os contratos passem a estipular conteúdos para plataformas variadas desde o começo.

Jeff Gomez tem também a avaliação de que as empresas passarão a apostar em escritores consagrados para a parte editorial do conteúdo transmídia, o que deve "elevar a qualidade literária" - e, talvez, a faixa etária, já que hoje a maior parte dos lançamentos ainda é direcionada a adolescentes. A série The 39 Clues, por exemplo, tem cada volume assinado por um autor diferente - o primeiro é de Rick Riordan, cujo público infanto-juvenil é garantido pela sequência de histórias de Percy Jackson. O livro que sairá na esteira do quarto Piratas do Caribe, adianta o norte-americano, será feito por "um grande nome". "Porque, você sabe, a grana é boa, e bons autores também precisam fazer dinheiro de vez em quando."

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