Livros passam por rigorosa revisão

Os livros de Erico Verissimo vãopassar por um cuidadoso trabalho de revisão antes de chegar àslivrarias. A tarefa é executada por uma pequena equipe, sob ocomando da pesquisadora Maria da Glória Bordini, curadora doacervo literário do escritor gaúcho. "Algumas edições aindacontêm erros de tipografia, inversão de linhas e até deportuguês", explica ela que, junto de seu grupo, já finalizou otrabalho em nove obras.O acerto é feito a partir do cotejamento com edições que foramrevistas pelo próprio Erico ou nos poucos originais conhecidos,tanto os que figuram no acervo como os que estão com amigos doescritor, que os presenteava como "prova de afeto". Em algunscasos, a falha na publicação compromete a própria estruturaçãocriada pelo autor. É o caso de Noite, em que, em umadeterminada passagem, Erico originalmente abria um espaço paraum novo capítulo, mas a edição que chegou aos leitores exibia umtexto corrido. "A pausa era necessária, pois a forma como foipublicada alterou o sentido da história."Maria da Glória conseguiu reunir, no acervo, uma fartacorrespondência, além de fotografias, esboços de obras, além deensaios de capas, provas tipográficas, troféus e diplomas. "Nãohá nenhuma obra inédita, pois tudo o que queria publicar, elefez em vida", comenta a pesquisadora, que não tem autorizaçãoda família para editar as cartas que Erico trocou com amigos eoutros escritores.Música erudita - Seria uma oportunidade rara de se conhecer emdetalhes, por exemplo, a troca de informações com os autoresestrangeiros, cuja obra traduziu para o português. É o caso deThomas Mann, Somerset Maugham e, principalmente, Aldous Huxley,de quem assimilou a técnica do contraponto. "São mais de milcartas, que revelam histórias deliciosas, como a troca de idéiassobre música erudita com Herbert Caro", conta Maria da Glória,lembrando do hábito cultivado pelo autor de escrever embaladopor clássicos.Além do trabalho de catalogação, a pesquisadora pretende ampliaro acervo com a descoberta de novas entrevistas com o escritor.Uma coletânea delas foi lançada também pela editora Globo em1999, com o título A Liberdade de Escrever - Entrevistas sobreLiteratura e Política. São 14 conversas reveladoras que Ericotravou com jornalistas e autores renomados como ClariceLispector e Jorge Andrade. "São momentos em que Erico nãoapenas detalha sua forma de criação como também demonstra seuposicionamento político, contrariando muitos críticos que oacusavam de ser ausente", conta Maria da Glória.Em uma delas, o escritor gaúcho conta sua atitude diante dacensura prévia, durante o governo militar: "Jorge (Amado) e eudeclaramos que preferíamos abandonar a literatura a ter desubmeter nossos originais previamente à censura. Quero acreditarque um gauchão de Bagé como o presidente Garrastazzu Médici (...)não queira imitar, nem de leve, os governos de opressão,retrógrados e prepotentes. Ele sabe (...) que, para promover odesenvolvimento, (...) não é necessário censurar livros ououtros meios de expressão", disse ele, em entrevista publicadana revista Veja, em 1971.O posicionamento político e social de Erico Verissimo no momentoem que publicava suas obras vai ser decifrado em cada um doslivros reeditados, que terão um prefácio especialmente preparadosobre o assunto. É o caso, por exemplo, de O SenhorEmbaixador, lançado em 1965. O livro enfoca problemas urgentesem um mundo então dominado por governos de pressão: as relaçõesinteramericanas, as ditaturas militares da América Latina (e asoligarquias que as apoiavam) e sua contrapartida comunista. Otexto trata, sobretudo, do ser humano, que era uma grandepreocupação do escritor gaúcho.São tais sentimentos que convencem seu filho, Luis FernandoVerissimo, também autor, a apontar Ericocomo um escritor de vanguarda. A defesa foi inicialmenteapresentada em um dos textos do livro de ensaios O Tempo e oVento - 50 Anos, que a Editora da Universidade Federal deSanta Maria, no Rio Grande do Sul, junto da Edusc, Editora daUniversidade do Sagrado Coração, de Bauru (São Paulo), lançou em1999.Em seu artigo, que abre o volume, Luis Fernando afirma que Erico"foi um dos primeiros a fazer literatura urbana no Brasil, apreferir o despojamento anglo-saxão à empolgação ibérica efrancesa e escrever com uma informalidade que não excluía aexperiência com estilos e técnicas de narrativa".Saga familiar - Ao tratar especificamente da trilogia O Tempoe o Vento, Luis Fernando confessa que não se sabe o que é maisespantoso, se a ambição do autor de narrar a saga de uma famíliaou o fato de que conseguiu realizá-la. "É o único exemplo queeu conheço na literatura mundial de uma obra que se dobra sobresi mesma, se olha e se desmistifica enquanto está sendofeita."Erico iniciou a saga da família gaúcha em 1949, quando publicouO Continente. Na época, ele já rascunhava uma históriagrandiosa do Rio Grande do Sul. Dois anos depois, lançou ORetrato. E só terminou a trilogia entre 1961 e 62, com OArquipélago, em que não apenas encerra a sucessão familiarcomo refaz todo o quadro histórico e social do Rio Grande (etambém do Brasil) de 1745 a 1945.O "olhar sobre si mesmo" a que se refere Luis Fernando éperceptível com a descoberta de que o livro trata de um outrolivro que também está sendo escrito. Erico teve o cuidado defechar a história como um círculo ao repetir a primeira frase deO Continente como a última de O Arquipélago: trata-se domomento em que Floriano Cambará, o alter ego de Erico, senta-see escreve: "Era uma noite fria de lua cheia. As estrelascintilavam sobre a cidade de Santa Fé, que de tão quieta edeserta parecia um cemitério abandonado."Além da reedição da obra em formato tradicional, a editora Globoprogramou também lançamentos no formato de bolso, iniciados emjunho do ano passado, com Um Certo Capitão Rodrigo, além deAna Terra, em dezembro, e "Olhai os Lírios do Campo", emjaneiro. Após o lançamento de todos os livros, a editorapublicará as obras completas do autor em volumes conjuntos.Ao mesmo tempo em que colabora com o trabalho de revisão eatualização dos textos que vêm sendo relançados, Maria da GlóriaBordini cuida também da implantação do Centro Cultural EricoVerissimo, que deverá funcionar na Rua dos Andradas, no centrode Porto Alegre, em um edifício antigo que está bem conservado.Lá ficará arquivado todo o material produzido pelo escritor, queestará disponível para pesquisas. "Nossa previsão é inaugurar ocentro no fim deste ano", conta a pesquisadora.

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