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Livros para beber

Vodca e absinto são temas de dois volumes recém-lançados em que as bebidas são mote para histórias de costumes, cultura e política

Raquel Cozer, O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2011 | 00h00

Um século antes de o governo brasileiro estudar a obrigatoriedade de advertências sobre o consumo do álcool em anúncios publicitários, o escritor Leon Tolstoi (1828-1910) criava, na Rússia, o que poderia vir a ser o primeiro alerta da história sobre os malefícios da bebida, a ser colocado em garrafas de vodca: um rótulo com uma caveira, ossos cruzados e a palavra "veneno".

Àquela altura, em 1909, o governo russo detinha o monopólio da vodca no território, de modo que o esforço de reduzir os altíssimos níveis de alcoolismo no país não vingou, com a rejeição do selo pelo Conselho Imperial. Ele próprio um ex-boêmio de primeira, Tolstoi passou a pregar a abstinência após viver uma crise religiosa. Culpava o álcool por 90% dos crimes e pela perda da virgindade de metade das mulheres na Rússia, em coro com o amigo Anton Chekhov (1860-1904), que se referia aos produtores do destilado como "mascates de sangue do diabo".

Criado como produto medicinal no século 16, a vodca já era a beberagem favorita dos russos quando, na metade do século 19, o jovem Piotr Arsênievich Smirnov iniciou o maior império da bebida no país. Foi a partir da saga desse servo quase analfabeto que comprou a própria liberdade e construiu a mais famosa marca de vodca do mundo, a Smirnoff, que a jornalista norte-americana Linda Himelstein escreveu O Rei da Vodca, lançado no fim do ano por aqui.

Mudanças profundas. A trajetória da empresa serve apenas como fio condutor de uma história de costumes, cultura e política da Rússia ao longo dos últimos séculos. "Não queria escrever um livro de negócios. Queria contar a história fabulosa dessa família que conheceu todos os níveis de uma sociedade imersa em mudanças profundas", diz a autora por telefone ao Estado, de São Francisco.

Foi uma dessas mudanças profundas que fez Linda perceber a boa história que tinha em mãos. Em meados dos anos 90, um representante da família Smirnov nos Estados Unidos procurou a autora, então editora da revista Business Week, com um caso curioso. Com a extinção da União Soviética, um grupo de descendentes de Piotr Smirnov havia entrado na Justiça para reaver os direitos da marca de vodca mais vendida no mundo.

A empresa milionária criada pelo ex-servo tinha sido extinta na Rússia depois da Revolução de 1917. Refugiado na França, nos anos 30, um dos filhos de Smirnov, Vladimir, vendeu para o também exilado russo Rudolph Kunett a licença para vender a bebida nos EUA. Acontece que Vladimir já não tinha direitos sobre a marca ao fechar o negócio. Anos antes da Revolução, havia passado suas ações para o irmão mais velho, Piotr Pietróvich. Kunett fez da Smirnoff (com o nome ocidentalizado, com dois "f" em vez do "v") uma das marcas de bebida mais consumidas no mundo numa época em que o regime comunista tornava impensável uma empresa em seu território fazer o mesmo.

O artigo de Linda sobre o caso saiu em 1996. Três anos depois, a Justiça rejeitou as reivindicações dos Smirnov, já que foi o trabalho de Kunett que tornou a marca conhecida no Ocidente. Em 2005, durante pesquisas na Rússia, Linda conheceu alguns dos descendentes de Piotr Smirnov. Foi com surpresa que descobriu que, muito simples, eles pouco sabiam da história do antepassado que rompera todas as barreiras sociais para criar um império. Por ironia do destino, boa parte dos Smirnov havia voltado às classes mais baixas da sociedade, das quais Piotr batalhara a vida toda para sair.

ABSINTO - UMA HISTÓRIA CULTURAL

Autor: Phill Baker. Editora: Nova Alexandria

(364 págs., R$ 52).

O REI DA VODCA - A SAGA DA FAMÍLIA SMIRNOV

Autora: Linda Himelstein. Editora: Zahar (228 págs., R$ 39).

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