Livros imortalizam Oscar Wilde

Com a aproximação do centenário de morte de Oscar Wilde (30 de novembro), começam a aparecer novos livros sobre o autor. Há ainda alguma coisa a ser dita, em especial depois da monumental biografia de Richard Ellman, publicada em 1987? É o que se pergunta o Financial Times em sua edição de fim de semana, de 14/10. Dois artigos analisam dois livros. Um, já disponível na Livraria Cultura, Oscar Wilde: a Certain Genius, de Barbara Belford, outro Truly Wilde: the Unsettling Story of Dolly Wilde, Oscar´s Unusual Niece, de Joan Shenkar.O primeiro, uma nova biografia que, segundo o autor da resenha, Andrew Motion, tem ainda o que dizer. O segundo, sobre a vida da sobrinha de Wilde, Dolly, que nasceu três meses depois da prisão do tio, em 1895, e morreu em Londres, de uma overdose, depois de uma vida nada convencional passada no circuito lésbico-literário de Paris. Dolly viveu à sombra de Oscar. Vestia-se como o tio, chamava-se a si mesma de Oscaria, e adotava os trejeitos atribuídos ao dândi irlandês. Só não tinha o mesmo talento literário.Barbara Belford, na introdução do seu Oscar Wilde, admite que já foram escritas centenas de obras sobre o escritor e que portanto é mesmo difícil apresentar algum ângulo novo que ainda não tenha sido exaustivamente explorado. Mas, claro, a sua mais evidente pedra no meio do caminho chama-se Richard Ellmann, um daqueles biógrafos exemplares, como Isaac Deutscher, autor da biografia de Trotski. Esse tipo de gente dificilmente deixa espaço livre para seus sucessores.Barbara admite que o Wilde de Ellmann é "abrangente" e "criticamente astuto", mas ainda assim teria alguns pontos fracos. Ela cita um, em especial: Ellmann teria discutido o homossexualismo de Wilde como assunto privado, excluído da cultura e da política. Acusa também o biógrafo de "induzir os leitores a acreditar que Wilde contraiu sífilis de uma prostituta quando estava em Oxford, fato que teria influência decisiva sobre seu caráter sexual, sobre seus primeiros poemas e sua posterior conversão ao catolicismo, bem como sobre a maneira como morreu."Mito - É nessa contextualização, portanto, que ela irá fincar o alicerce de sua obra. No entanto, segundo o resenhista Andrew Motion, Barbara acerta ao estabelecer uma visão bastante adequada da vida gay no final do século 19, e das hipocrisias reinantes do establishment inglês. Mas falha ao tentar estabelecer os elos entre estes e outros aspectos da sociedade em questão. Particularmente, ficaria de fora uma análise mais convincente do socialismo de Wilde, teorizado por ele no ensaio The Soul of a Man Under Socialism. O crítico lembra, com razão, que a compreensão política de Wilde era altamente individualizada, além de pouco desenvolvida em aspectos importantes. Wilde tendia a ver a vida social de um ponto de vista exterior, como crítico ou como vítima - o que é mais do que compreensível.Quanto a Dolly, a sobrinha, sua história é quase como uma coda à trajetória dramática de Wilde. A conclusão de Jackie Wullschlager, que assina a resenha do livro de Joan Schenkar sobre Dolly é a seguinte: "A história que ela desvela é um pungente post scriptum para o mito de Wilde".

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.