Livros com bula

Prosa de Sábado

Sergio Augusto, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2010 | 00h00

Fez 50 anos na terça-feira que O Amante de Lady Chatterley foi "inocentado" por um júri especialmente constituído para julgar se o romance de D.H. Lawrence, consumido clandestinamente na Inglaterra desde sua publicação em 1928, merecia continuar proibido, sob a acusação de "obsceno". Já havia me preparado para brindar aqui o cinquentenário daquela alforria e também a última edição da Banned Books Week (Semana dos Livros Proibidos), celebração anual da liberdade de expressão organizada por livrarias e bibliotecas americanas, quando soube do enquadramento de Monteiro Lobato pelo Conselho Nacional de Educação, e não só desisti do brinde como pus as barbas de molho.

Foi assim: um mestrando da Universidade de Brasília denunciou a obra de Lobato como "racista" à Secretaria de Promoção de Igualdade Racial, ligada à Presidência, que, por sua vez, submeteu a acusação ao crivo dos conselheiros do CNE, e estes sugeriram que Caçadas de Pedrinho e outras aventuras do Sítio do Picapau Amarelo fossem retiradas do acervo do Programa Nacional Biblioteca na Escola. Ou seja, os livros infantis de Lobato, a primeira ponte de várias gerações de brasileiros para a leitura e a fantasia literária, correm o risco de ser banidos das escolas públicas porque certos comentários de Emilia sobre Tia Nastácia ("negra beiçuda". etc.) foram considerados preconceituosos e racistas, nocivos à formação de nossas crianças.

Tsk, tsk. Uma briga da filha de Lobato com a editora Brasiliense impediu a republicação da obra do escritor durante décadas; agora esta.

Não se trata de censura, apressou-se em esclarecer a relatora do parecer do CNE, que, como alternativa à proibição pura e simples, sugeriu a inclusão, nos livros denunciados, de uma nota de esclarecimento sobre a presença de estereótipos raciais, sem o acréscimo, nas capas, de uma tarja preta (epa!, nessa cor não) ou uma letra escarlate ou uma estrela amarela.

O escritor João Ubaldo foi o primeiro dos meus amigos a manifestar-se contra "essa estupidez", "esse atraso mascarado de progresso". Numa troca de e-mails, condenou com veemência a adoção de "certificados e bulas" nos livros aceitos na rede pública de ensino, assim como a necessidade de "explicações do bem", nas salas de aula, por professores com uma visão politicamente correta do preconceito racial no Brasil. E literariamente equivocada, além de paternalista, acrescento eu.

Lobato tem sido patrulhado pelo seu "racismo" desde o tempo em que as brancas eram brancas, pretas eram pretas, mas a mulata era a tal, e qualquer um que trepasse numa árvore, fosse negro, branco ou amarelo, perigava ser comparado a um macaco. Emilia & cia. foram criados antes da metade do século passado; não faz sentido submetê-los, com tamanho rigor, a critérios de avaliação estabelecidos depois da morte do escritor e a pedagogos que enxergam discriminação racial até em locuções como "olhos negros" (autuada em Machado de Assis), "nuvens espessas e negras" (Padre Antonio Vieira), "ideias negras" (Machado, Lima Barreto), "alma negra de tristura" (José de Alencar), "negro espectro" (Gonçalves Dias), "negra insônia" (Castro Alves), "negra ingratidão" (Inglês de Sousa), "negro amor" (Drummond), "a coisa aqui está preta" (Chico Buarque). E o que dizer do Samba do Crioulo Doido, de Sérgio Pôrto?

Mark Twain sofreu muito mais que Lobato. As Aventuras de Huckleberry não foi só tachado, injustamente, de racista, mas também de imoral e "escrito em dialeto ignorante", os motivos mais alegados para proscrevê-lo das bibliotecas americanas, poucas semanas depois de sua publicação, em março de 1885. O clássico de Twain, que ainda figurava entre os dez livros mais proibidos de 2007, ao lado de romances de Faulkner e Salinger, é um eterno perseguido pela intolerância ideológica e a mesquinhez analítica, como o Shakespeare de O Mercador de Veneza, acusado de antissemitismo, inclusive por um fanático admirador do Cisne de Avon, Harold Bloom (nessa polêmica eu fecho com a visão mais nuançada que James Shapiro tem de Shylock, o paradigmático agiota da peça), e o Joseph Conrad de O Coração das Trevas, demonizado como racista por vários intelectuais africanos que tinham e têm a obrigação de conhecer melhor a cultura vitoriana em que o romance foi gerado.

Lobato, portanto, não está em má companhia.

Se nos fiarmos nos estudos acadêmicos sobre "racismo na literatura brasileira" de que volta e meia tomo conhecimento, alguns valiosos, a maioria paranoica e bocó, raríssimas obras escapariam de um enquadramento na Lei Afonso Arinos. Mesmo os mulatos Machado de Assis e Lima Barreto, como já vimos, a infringiram; idem o Manuel Antônio de Almeida de Memórias de Um Sargento de Milícias (difícil imaginar este marco da prosa nacional com a advertência: "Cuidado! Este livro contém alusões de fundo racista"), o Raul Pompéia de O Ateneu, passando até pelo poeta negro Cruz e Sousa, useiro e vezeiro no uso do adjetivo negro como sinônimo de triste, lúgubre, funesto, lutuoso.

Essa polêmica em torno do "racismo" de Lobato me fez lembrar de um artigo de Jorge Mautner acusando Noel Rosa de "antissemita", que, aliás, só ganhou fama por ter sido desancado por Millôr Fernandes. A prova do antissemitismo de Noel seria o "judeu da prestação" aludido num de seus sambas. O labéu não colou. A sensatez popular uma vez mais prevaleceu sobre a estupidez letrada. Que Lobato tenha a mesma sorte.

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