Livro virou referência de autores

Paulo Leminski vivia no lendário Solar da Fossa, no Rio, quando escreveu Catatau, livro que editou às próprias custas (nenhuma editora da época se aventuraria tão longe) e que acabou virando uma espécie de Finnegan"s Wake de uma geração. No Solar da Fossa, apelido dado a uma pensão em Botafogo, viveram também Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Tim Maia, Gal Costa, Zé Kétti, entre outros.

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2011 | 00h00

O romance do poeta, tradutor, biógrafo, carateca e compositor curitibano Leminski, pela audácia e originalidade, tornou-se cult em pouco tempo, apesar da edição limitada e rapidamente esgotada. Catatau está entre aqueles romances experimentais, aquela prosa mais comprometida com a pesquisa da palavra, do texto. Ele estava influenciado pelo Finnegan"s Wake, de Joyce, e pelas Galáxias, do Haroldo de Campos. Isso pode ter dado o start, o impulso, mas há sobretudo um admirável senso de experimentação.

"A ideia de botar o pai da lógica (o filósofo francês René Descartes, que Leminski chama de Renatus Cartesius, e que viveu de 1596 a 1650) perdendo a lógica nos trópicos foi muito boa", considerou a poeta Alice Ruiz, que foi casada com Leminski.

"A velocidade da lógica ultrapassa o limite da linguagem, atrás da linguagem, na frente de quê? Tem tudo que ser igual ao eco... só falta equar! Posso ser útil se me vendo claro mas entendo e entendendo me fazendo de meu entendedor de meias colcheias e colméias cheias. Quem dá o que falar, não dá para fazer o mesmo?", diz trecho do Catatau.

Autores como Wilson Bueno, Cristóvão Tezza, Toninho Vaz, Ademir Assunção, Rodrigo Garcia Lopes e outros cresceram artisticamente no rastro desse ambiente literário que Leminski iluminou a partir dos anos 80. O Paulo era louco pela palavra, por escrever. Mas, ao mesmo tempo que era de vanguarda, cultivava grande apreço pelos velhos sistemas. Em 2009, no Itaú Cultural, uma exposição voltada à obra do artista conseguiu mostrar fragmentos dos manuscritos do Catatau, descobertos em caixas que sua família guarda em Curitiba.

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