Livro traz trajetória da Real Biblioteca

Por que um rei em fuga decidecarregar consigo (o pronome consigo se justifica: o rei eraportuguês) uma biblioteca? Como a preciosidade é esquecida noporto, enquanto a corte segue para uma cidade abaixo do Equador?Por que um País que nasce contrai dívidas para ficar com livrose documentos antigos? A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis, dahistoriadora Lilia Moritz Schwarcz, professora do Departamentode Antropologia da Universidade de São Paulo, em parceria com ospesquisadores Angela Marques da Costa e Paulo Cesar de Azevedo(este morto antes da publicação da obra), procura contar ahistória da Independência do Brasil a partir de uma coleção delivros, a chamada Real Biblioteca - cujos manuscritos e livrosformaram o primeiro acervo da atual Biblioteca Nacional, queganhou este nome na República, depois de ser, também, aBiblioteca Imperial. O livro começa com um cataclisma natural: o terremoto deLisboa de 1755, em que a antiga coleção de livros e documentos édestruída pelos incêndios que se seguiram ao grande abalo. Nadécada de 1750, ela "era tratada como uma espécie de ícone damonarquia; seus cerca de 70 mil livros faziam dela uma dasmelhores do gênero: tudo contribuía para encontrar noestabelecimento um retrato raro do que se era ou do que sepretendia ser." Mas, escrevem os autores, "o fogo teimou emser democrático e destruiu a todos e a tudo: diante do papel, aschamas foram implacáveis, reduzindo os documentos a cinza epó". A ligação de Lilia com a antropologia faz com que elaprocure encontrar, sobretudo, o sentido simbólico dareconstituição de uma grande biblioteca. "Quis narrar umagrande história a partir de uma parte dela", afirma Lilia, quecita a obra do italiano Carlo Ginzburg (O Queijo e osVermes) como um modelo de seu trabalho. A história do Brasil,ganha, assim, uma narrativa que percorre o ponto de vista dosbibliotecários - que procuraram reconstituir sua coleção e,muitas vezes, valorizaram os governantes a partir de suapreocupação e engajamento na constituição de um grande eimportante acervo. "É um paradoxo: o Portugal da censura é também o Paísque procura guardar inclusive obras proibidas", diz Lilia, quecita, entre tantos outros, o livro de Kenneth Maxwell Marquêsde Pombal - Paradoxo do Iluminismo (Paz e Terra). "No Brasil,a biblioteca é um troféu de prestígio, ela ´alonga´ a históriado País" - um Império escravocrata cercado de República portodos os lados. A história da biblioteca narrada por Lilia tem momentoscômicos, como a descrição do hábito dos membros da corte de usaróculos, com o objetivo de insinuarem-se leitores, e astentativas frustradas de embarcar com a corte para o Rio deJaneiro. E, também, pequenas e úteis traições. Na saída dafamília real de Lisboa, em 1808, a biblioteca é esquecida,deixada para trás. Do Brasil, o regente d. João VI manda queimardocumentos comprometedores sobre a política externa adotada porPortugal - hábil em achar um espaço entre as potências França,Inglaterra e, também, Espanha usando de tratados secretos edescumprindo acordos em sigilo. Mas os bibliotecários, ciosos daimportância dos papéis, "enrolam" o rei. Os papéis e livrosviajam para o Brasil em três partes, em 1810 e 1811. Com a Independência, cria-se um novo problema: a quempertenceria o acervo da Biblioteca Real? O Brasil de d. Pedro Idecide que os documentos são importantes - novamente, seu podersimbólico emerge. Era preciso mostrar que o Império era tambémilustrado. Um dos exemplos disso pode ser visto no traço deDebret, numa das imagens de Viagem Pitoresca através doBrasil (Itatiaia) - que, acompanhando a imagem feita para umPano de Boca Executado para a Representação Extraordinária Dadano Teatro da Corte por Ocasião da Coroação de d. Pedro I,Imperador do Brasil, escreve: "Essa composição foi submetida àsobservações do primeiro-ministro José Bonifácio, que a aprovou.Ele apenas me pediu que substituísse as palmeiras naturais porum motivo arquitetônico regular, para afastar toda idéia deestado selvagem." Nada melhor para "esconder" as palmeiras de um Estadoselvagem que uma pilha de livros, ainda que eles fossem poucoconsultados. Nem que para isso fosse preciso pagar caro: quandoo Brasil se torna independente, em 1822, aceita indenizarPortugal pelo que foi construído e deixado no Brasil pelafamília real. O segundo item da dívida, de 2 milhões de librasesterlinas, era justamente a coleção da biblioteca real. Liliadiz que seu trabalho ajuda a ilustrar aquilo que Sérgio Buarquede Holanda, em Raízes do Brasil, chamou de "cultura dolustro". Cultura que seguiu na República - sem se preocupar emcombater diretamente o analfabetismo da população, o novo regimenão deixa de valorizar a biblioteca, construindo o imponenteedifício que ainda hoje abriga a Biblioteca Nacional.Serviço - A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis. De Lilia MoritzSchwarcz. Com Paulo Cesar de Azevedo e Angela Marques da Costa.Cia. das Letras. 560 págs. R$ 44,50. Lançamento na segunda, às18h30. Livraria Cultura. Av. Paulista, 2.073, tel. 3170-4033

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