Livro traz inéditos de Cora Coralina

- Uma preciosa coleção de manuscritos foi cuidadosamente guardada pelos familiares de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, em 1985, quando ela morreu, aos 96 anos. São textos inéditos em prosa e poesia, que os parentes planejam publicar gradativamente, para manter ativa a memória de Ana, mais conhecida pelo pseudônimo de Cora Coralina. E, quando a cidade de Goiás, onde ela nasceu, foi oficializada pela Unesco como patrimônio da humanidade, a pasta foi cuidadosamente aberta e foram selecionados os textos que tratam da paixão da escritora pela sua terra.O resultado é Villa Boa de Goyaz (112 páginas, R$ 15), livro que a Global Editora está lançando, com ilustrações de João do Couto, em comemoração ao título internacional. O título da obra faz referência ao antigo nome de Goiás, simpática cidade que está a 136 km de Goiânia e que foi a primeira capital de Goiás . A seleção foi feita pela filha de Cora, Vicência Bretas Tahan, e reforça uma característica que se tornou a mais marcante na obra da escritora: a habilidade com que revê, escreve e analisa os assuntos de um passado não tão remoto, mas já esquecido.Cora Coralina não se filiou a nenhuma corrente literária. Construiu, na verdade, um estilo pessoal a partir de sua experiência como contadora de histórias. Assim, sua obra é considerada por vários autores um registro histórico-social do século 20, especialmente da região do serrado do Centro-Oeste brasileiro, onde nasceu e morreu.Os textos e os poemas de Villa Boa de Goyaz são pequenos retratos da cidade de Goiás do início do século passado. Já na primeira crônica, O Velho Telhado, Cora descreve com amargura as modificações estruturais sofridas pelo seu lar, a Casa Velha da Ponte, que hoje abriga o Museu Cora Coralina. "Duzentos anos de poeira acumulada e desalojada com a remoção das telhas negras e da madeira escura e arcada ao peso dos anos", lamenta-se.Autos do passado - Cora sentia-se, na verdade, motivada a acumular registros históricos de sua cidade que, por ser famosa pela manutenção de uma arquitetura centenária, acostumou-se a aceitar com dificuldade qualquer modificação em seus edifícios. "Alguém deve rever, escrever e assinar os autos do passado antes que o tempo passe tudo a raso", costumava pregar, confirmando-se como o elo da permanência da tradição com os tempos presentes. "Geração ponte, eu fui. Posso contar."A seleção dos textos, que peca apenas pela ausência das datas em que foram produzidos, permite fazer uma viagem por Goiás. Logo em seguida à crônica sobre a alteração no telhado de sua casa, vem um texto sobre os sinos da cidade que, embora pequena, não lhe faltam modelos diversos. Cora analisa os sinos das seis igrejas de Goiás, revelando até mesmo o número de badaladas entoadas em cada momento do dia. O texto termina com a aparição de Júlia, uma senhora de 50 anos especializada na linguagem dos sinos. Consultada por Cora, ela identifica que o sino que toca naquele momento é em homenagem a um morto. Adulto, não criança. E homem, não mulher, graças à gravidade do som das badaladas. "Júlia vai traduzindo em linguagem figurada, pitoresca, a fala mais alegre ou lamentosa dos sinos."Depois de fazer observações sobre o telhado de sua casa e dos sinos das igrejas, o texto de Cora aponta as modificações nos nomes das ruas da cidade. No poema Mutações, ela traça um saudoso passeio pelo centro antigo, onde ruas com nomes como Rintintin, Chafariz e Nova foram trocados por outros, mais estranhos. "Rua do Fogo se apagou,/ nas vielas não se toca./ Beco da Morte é pecado./ Do Cotovelo é suspeito." O poema termina com uma ironia agridoce ao lembrar que apenas um logradouro, o Beco da Vila Rica, não mudou: "Por ser muito pobre e sujo/ contrário lhe assenta o nome./ Se há de ser beco do sujo pobre/ seja mesmo da Vila Rica/ com toda sua pobreza."As observações que Cora faz em Villa Boa de Goyaz não se limitam, porém, a espaços físicos - ela reserva um carinho especial também para pessoas que se tornaram famosas na cidade. Na crônica "Um Vencedor", por exemplo, ela conta a história de um homem chamado Luís de Tal, cujo maior feito foi sobreviver: ao longo da vida, que desfrutou na roça, ele sofreu uma série de acidentes que, se não lhe trouxe a morte, provocou a decepação das mãos e parte dos braços. "Tem andar balanceado de navegante em terra, tem arrojo. Não conta, nem esconde o acontecido. Não depende de quem quer que seja para levar o alimento à boca e para suas necessidades. É um vencedor, com sua dupla mutilação!"Pessoal - Em sua obra, Cora Coralina utilizou, segundo observou o professor Wendel Santos, a energia de dois tipos de material: o psicológico e o histórico. "Ela construiu sua obra a partir da historização de sua experiência pessoal. Assim, na criação de sua arte literária, ela mistura a circunstância e a imaginação", comentou.A história pessoal da escritora, tortuosa e sofrida, teve influência decisiva em sua escrita. "Éramos quatro as filhas de minha mãe./ Entre elas ocupei sempre o pior lugar...", escreveu certa vez, confessando ser uma criança tímida. Em carta trocada com Carlos Drummond de Andrade, lembra-se de ter sido triste, nervosa e feia: "Amarela, de rosto empalamado. De pernas moles, caindo à toa. Perdera o pai muito novinha. Seus brinquedos eram coquilhos de palmeira, caquinhos de louça, bonecas de pano. Não era compreendida. Tinha medo de falar".Segundo o poeta, em crônica publicada no Jornal do Brasil em 1980, Cora lembrava-se "com amargura essas carências, esquecendo-se de que a tristeza infantil não lhe impediu, antes lhe terá preparado a percepção solidária das dores humanas, que o seu verso consegue exprimir tão vivamente em forma antes artesanal do que acadêmica".Drummond lembra que o costume de os mais velhos contarem casos para as crianças é um fato psicológico que deve ser realçado como elemento provocador, por excelência, da imaginação criadora dos habitantes de Goiás. Os poemas e as crônicas de Cora Coralina revelam o estilo oral desses casos, sem a utilização de recursos literários, gravados com a aparente simplicidade que caracteriza a sua obra poética.Outro fator decisivo foi o período de 45 anos (entre 1911 e 1956) em que se mudou de Goiás, vivendo em diversas cidades paulistas (Jaboticabal, Andradina e a própria capital). Ao voltar à sua terra, redescobriu novas imagens que aguçaram seus sentidos e sua sensibilidade. Sensações que participaram de sua obra, como observou o estudioso Oswaldino Marques: "Ao lê-la, pensamos, não raro, num Guimarães Rosa transposto para a poesia de Goiás. É extraordinária a maneira como absorve, assimila o tempo e a geografia desse perdido paraíso dos trópicos, reofertado a nós em sua autenticidade inaugural."

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