Evelson Freitas/AE
Evelson Freitas/AE

Livro traz imagens da trajetória de Antunes Filho desde 1978

Volume organizado por Emidio Luisi e Sebastião Milaré tem cerca de 200 imagens da carreira do diretor

Maria Eugênia de Menezes , O Estado de S. Paulo

30 de novembro de 2011 | 22h00

"Um dia você acorda, toma café, sai de casa. E, de repente, um contingente de pessoas começa a falar do seu trabalho, a te enaltecer. Isso lhe deixa boquiaberto: ver alguém fazendo odes à sua vida", comenta Antunes Filho, 81 anos. "De um lado, é uma vergonha infinita. Uma vontade de abrir um buraco na terra e enterrar a cabeça. Mas também, imagina se ninguém falasse nada."

É assim, oscilando entre opostos, que o diretor discorre sobre Antunes Filho, Poeta da Cena, livro a ser lançado na terça, dia 6. "Fico aí nesse limite. Entre surpreso e envergonhado", ele resume. Com fotografias de Emidio Luisi e textos de Sebastião Milaré, a publicação mapeia boa parte da trajetória deste que é um dos maiores encenadores brasileiros do século 20. Articula imagens e relatos de contextos e momentos distintos.

Há mais de 30 anos, ambos, fotógrafo e crítico, acompanham Antunes. É extensa a lista dos que passaram pelo CPT - Centro de Pesquisa Teatral do diretor ao longo das últimas décadas: atores como Raul Cortez, Stênio Garcia, Luis Mello, Giulia Gam, Cacá Carvalho. Mas pouca gente teve a chance de observar por tanto tempo, e tão de perto, os ensaios, os bastidores, o processo de criação do artista.

"Às vezes, fico meses sem vê-los. Mas eles estão sempre ali, do meu lado. Estão grudados na minha vida. Não consigo me desfazer deles", diz o encenador, sentado entre as duas testemunhas privilegiadas do seu trabalho.

No dia do lançamento, os três conversam com o público sobre o sentido dessa longeva parceria. E também devem, certamente, rememorar anedotas dessa convivência. "Quando propus escrever um livro sobre ele, o Ulysses Cruz, que era o seu assistente na época, me disse para não comentar nada com ele. Mas como eu ia escrever uma biografia escondido? Para surpresa de todo mundo, fiz um projeto, e ele aceitou", conta Milaré, explicando como passou a ser aceito como alguém "de casa". Ou mais do que isso. Merecedor até de certas regalias que o diretor não costuma conceder. "Ninguém nunca pôde fumar durante os ensaios. Mas, para mim, havia até um cinzeirinho separado ao lado da cadeira."

É o terceiro livro em que o crítico tematiza o vocabulário de Antunes. Na década de 1990, escreveu Antunes e a Dimensão Utópica, uma investigação sobre a primeira fase desse percurso. Em 2010, havia publicado Hierofania, um tratado sobre seu método e seu processo criativo.

Já Emidio Luisi sistematiza pela primeira vez o resultado de três décadas de olhar constante sobre a obra de Antunes Filho. Imagens de muitas épocas, reveladoras do desdobrar de um projeto estético. Italiano que emigrou criança para o Brasil, Emidio trocou a carreira de arquiteto pelas câmeras e esteve, desde sempre, próximo do palco. Registrou 35 anos de espetáculos do Ballet Stagium. Detalhou, em mais de uma centena de retratos, a poética dos movimentos do bailarino japonês Kazuo Ohno. A descoberta do teatro de Antunes deu-se ainda nos anos 1960. "Fiquei estupefato quando assisti à Cozinha", rememora o fotógrafo, discorrendo sobre o espetáculo ultrarrealista de 1968. Suas lentes, contudo, levariam ainda dez anos para começar a capturar a arte do encenador.

Curiosamente, seu primeiro registro foi justamente de Macunaíma, montagem divisora de águas na cena nacional. Turning point na trajetória do diretor, conforme aponta Antônio Gonçalves Filho, crítico e repórter do Caderno 2, no prefácio que escreveu para o volume.

Foi ao levar à cena a rapsódia de Mário de Andrade que Antunes Filho deu forma à linguagem que vinha há tanto burilando. A criação tornou-se a peça brasileira mais vista no exterior. Desanuviou olhares viciados. Abriu as portas para as montagens excepcionais que se seguiram. Em Antunes Filho - Poeta da Cena, estão registrados todos os espetáculos que surgiram a partir daí.

Os textos de Nelson Rodrigues que alcançaram nova dimensão em criações como Paraíso Zona Norte (1989) e Nelson Rodrigues, O Eterno Retorno (1981). A lufada de novidade que significou a série Prêt-à-Porter. As peças de Shakespeare que ressurgiram contaminadas por ideias zen-budistas em Macbeth (1992) ou por aspirações de liberdade em Romeu e Julieta (1984).

Imerso no pensamento de Antunes, o fotógrafo bebeu tudo isso com os mesmos olhos cinematográficos do criador teatral. "Essa influência do cinema na obra dele certamente me contaminou", crê o fotógrafo.

Vistas em perspectiva, as mais de 200 imagens reunidas na publicação dão conta do caminho de um artista que não gosta muito de se deter sobre o passado. "Quem olha para trás, vira estátua de sal", ele diz, a garantir que está sempre concentrado no que ainda está por vir. "É por isso que um livro como esse me parece uma prisão. Porque tenho que corresponder a isso. Mas tenho também que romper com isso."

Somente distante do pedestal é possível criar, parece ensinar o diretor, com mais de 50 anos de carreira. Como se a arte só pudesse surgir em algum lugar essencialmente instável, desequilibrado. "De seguro, só a morte. Tem que ser chato, moleque. Minha convicção é uma máscara. Eu sou essa contradição."

Todas as suas certezas, dá para entrever, são apenas provocações. "Se tivesse definido seus propósitos absolutos, podia já ter acabado", considera Milaré.

Talvez seja, então, pelas frechas de opostos, não pelo retrato faustoso, que se torne possível vasculhar o que vai trás desse mito. O que se esconde entre a timidez e o orgulho, entre o conhecimento e a dúvida. Verdade é que basta apenas um estalo, uma provocação, um sorriso e eis de novo o homem tornado em menino.

Antunes Filho

O diretor é um dos responsáveis pela renovação do teatro brasileiro nos anos 1960

Emidio Luisi

Fotógrafo, especializado em teatro, acompanha Antunes Filho há mais de 30 anos

Sebastião Milaré

Jornalista e crítico teatral, é autor de várias obras sobre a arte de Antunes Filho

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