Livro traz curiosidades sobre alfabeto

Britânico, John Man, de 55 anos, estudou, na universidade, alemão e francês. Já viveu entre os índios equatorianos waoranis, que tiveram sua língua fixada em alfabeto romano depois de terem sido contatados, nos anos 1960. Hoje, lê mongol e russo. Durante a entrevista à reportagem, por telefone, pediu desculpas por não conseguir usar o chinês e lamentou não falar português. "Como escritor, sempre tive interesse pela história da escrita", conta ele. Seu livro não é um tratado acadêmico sobre o assunto: é uma obra que se propõe a contar os passos mais importantes da idéia de escrever por meio de letras, e não por meio de imagens. Na verdade, é a primeira obra de uma trilogia. Na Inglaterra, acaba de lançar The Gutenberg Revolution ("A Revolução de Gutenberg"), que trata desse outro momento da história literária humana. Até o fim do ano, planeja concluir The Birth of Writing ("O Nascimento da Escrita")."A história completa do alfabeto formaria uma biblioteca, com seções específicas contendo registros de sistemas alfabéticos e suas culturas, o impacto da capacidade de se ler e escrever ao longo dos séculos, a psicologia da leitura, técnicas de escrita, os estranhos universos de mágicos que transformaram o ABC em abracadabra", escreve Man. Seu livro é bem mais simples: "Trata do tema como unidade."No Egito - Man cita pesquisas recentes, ainda polêmicas, admite o autor, que apontam para o Egito, há 4 mil anos, o início da idéia do alfabeto. Antes, porém, explica didaticamente a diferença entre escrever usando símbolos, como as letras, e usando imagens, como eram os hieróglifos egípcios. Apesar de parecerem indecifráveis para o público leigo, Man conta que, "na verdade, os peritos conseguem ler hieróglifos com bastante fluência". Um sinal indica o assunto tratado, e o que se chama de determinativo esclarece as ambigüidades. Assim, um desenho de materiais para escrita pode significar tanto "escrever" quanto "escriba", dependendo do determinativo que o segue: se mostra papel para livros, então é o primeiro caso; se é um homem sentado, estamos no segundo. "Acho que as sociedades que atingem certo grau de desenvolvimento ´precisam´ inventar a escrita, e isso ocorreu, provavelmente, de modo independente em quatro lugares diferentes no mundo - na China, na Mesopotâmia, no Egito e na América Central; assim como a invenção da roda, é quase ´natural´", diz Man. "Já a invenção do alfabeto parece ter ocorrido só uma vez, justamente porque não é uma decorrência lógica, e adapta todas as outras."Essa criação única teria surgido, narra Man, por volta do ano 2000 a.C. na região do Egito. Seria obra daquilo que os gregos chamariam, no futuro, de bárbaros, ou estrangeiros. "Uma vez criados, os sistemas de escritas são dotados de extraordinária elasticidade", escreve. "As mudanças, segundo parece, não surgem espontaneamente do seu âmago." Ele propõe três idéias básicas que orientariam a história da escrita: "1. Em um sistema de escrita, a complexida não tem limites e não os impõe; 2. um sistema de escrita durará tanto quanto a sua cultura, a menos que seja alterado à força; 3. novos sistemas de escrita surgem somente em culturas novas, jovens e ambiciosas." É justamente a partir dessa terceira hipótese, esclarece, que se imagina o início do alfabeto.Misturando um pouco de narrativa policial com aventuras de arqueólogos que lembram Indiana Jones, Man conta que, nos anos 1990, foram encontrados, em regiões desérticas um tanto distantes do Nilo pouco exploradas, registros de uma escrita diferente, que seriam as raízes dos nossos "a", "b", "r", "n", "m", "p", "w" e "t" e de mais quatro letras semíticas. Esse alfabeto primitivo seria a criação dos asiáticos que viviam ou atravessam o Egito, negociando produtos e escravos - uma presença "incomôda", mas necessária.Em vez de "aprender" apenas a escrita hieroglífica, eles a adaptaram. Um exemplo, que tem como protagonista um suposto autor asiático: "Para começar, ele seleciona imagens de dois objetos corriqueiros, um boi e uma casa. Na escrita hieroglífica e na hierática, a cabeça de um boi era um determinativo que definia o tipo de carne a ser usada em rituais como oferendas fúnebres, mas para os que falam em semítico poderia representar a sua letra inicial em semítico, a parada glótica que às vezes é descrita como um ´ah tossido´ (...) Mais tarde, modificaria a sua pronúncia mais uma vez, transformando-se na nossa letra ´a´, pronunciada de diversas formas, dependendo de língua e contexto."Assim começaria a ser montado esse quebra-cabeça. "Gosto de imaginar que esses asiáticos letrados tinham consciência de estar inventando algo revolucionário. Estavam fazendo uma declaração: o hierático e os hieróglifos são para ´eles´; isto é para ´nós´, uma forma de mostrarmos que não somos estrangeiros desprezados. Com estes poucos sinais, incompreensíveis para os egípcios, e no entanto tão fáceis para os que os conhecem, os asiáticos poderiam registrar as suas transações e posses, além de marcar sua presença e dar aos seus vários povos as suas próprias inscrições fúnebres." Claro que não foi bem assim. John Man sabe que os "inventores" do primeiro alfabeto não suspeitavam de como aquilo seria usado, de como os gregos adaptariam essa herança, os árabes inventariam uma escrita que, a rigor, não é exatamente um alfabeto, de como os chineses teriam de recorrer a algo semelhante para usar os computadores, combinando o uso cotidiano da escrita ancestral com um alfabeto próprio, o pinyin. E nada do que ainda está por vir.

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