Livro traz 25 obras mais representativas da arte brasileira

'A Arte Brasileira em 25 Quadros' é uma obra do professor e escritor carioca Rafael Cardoso

Antonio Golçalves Filho,

02 de março de 2008 | 22h47

Historiador disposto à polêmica, o professor e escritor carioca Rafael Cardoso acaba de eleger aquela que seria, com as devidas proporções, nossa Mona Lisa. A Gioconda brasileira é uma adolescente de dedinho no queixo e olhar enigmático, pintada em 1898 por Eliseu Visconti (1866-1944), um italiano que chegou ainda menino ao Brasil. No parecer do grande crítico Mário Pedrosa (1901-1981), Visconti foi o "inaugurador da pintura brasileira", pioneiro na tentativa de pintar a luz dos trópicos, além de introdutor do design na terra do saci. Cardoso, não contente em definir nossa Gioconda, ainda relacionou outras 24 obras que considera as mais importantes realizadas entre 1790 e 1930 no livro A Arte Brasileira em 25 Quadros (Editora Record, 224 págs., R$ 80), nas livrarias a partir do dia 7.  Galeria das 25 obras   O autor reconhece que o exercício de construir uma antologia é tarefa das mais complicadas. Por que, por exemplo, escolher Debret como o pintor mais influente da Missão Francesa, e não Nicolas-Antoine Taunay? O que Tarsila tem para ser a representante do modernismo paulista que Di Cavalcanti não tem? Finalmente, por que o recorte temporal começa em 1790 com uma obra de autor desconhecido (provavelmente o pintor Leandro Joaquim, autor de uma vista da Lagoa do Boqueirão, no Rio) e termina em 1930? Essa já é uma questão mais simples de responder. O período escolhido corresponde, segundo o autor, "à ascensão e queda de um modelo europeu", traduzido na criação da Academia Imperial (depois transformada em Escola Nacional de Belas Artes) e o advento de uma pintura social no Brasil, após a febre modernista que deixou o Brasil de cama com tantos canibais e bananeiras. O livro, como se vê, é ambicioso. Tenta traçar um panorama da arte brasileira desde antes da chegada da Corte portuguesa, em 1808, até o momento de ruptura com os valores acadêmicos e a tentativa de encontrar uma identidade nacional após a Semana de Arte Moderna de 1922. Cardoso poderia ter parado por aí, mas usou como marco divisório o impacto institucional do Salão de 1931, também conhecido como Salão Revolucionário por ter abrigado a primeira geração de modernistas (Tarsila, Anita Malfatti, Brecheret) e a segunda (Guignard, Portinari, Flávio de Carvalho). O fato de ter carregado nas tintas do século 19 (a maioria dos artistas do livro) é justificado pelo próprio autor. Contrariando o senso comum, o historiador pretendeu enfatizar que nem tudo mudou com os modernistas de 1922. "Já havia uma modernização em curso muito antes da Semana", observa. Qualquer leitor Como argumento ele aponta um óleo gigantesco do acervo do Museu de Belas Artes, pintado em 1913 por Rodolpho Chambelland (1879-1967). Um protomodernista na Escola de Belas Artes? Isso mesmo. Na tela Baile à Fantasia, as cores correm livres e soltas como os foliões do baile carnavalesco, revelando muito mais sobre a transgressão moral (e pictórica) na Primeira República do que sonhavam os marechais, mesmo considerando que a Rússia já vivia a euforia construtivista e a Europa caminhava para a abstração. No ano em que Malevitch mergulhava na onda suprematista, Baile à Fantasia se afogava num oceano de cores, entregando-se sem pudor a essa vibração cromática e cegando o espectador com sua luminosidade tropical. Esse é apenas um dado adicional. Tudo o que o autor do livro não queria escrever é uma história para iniciados. Seu livro, de leitura muito agradável, é acessível a qualquer leitor sem formação na área. Outro cuidado com o leitor: todas as obras escolhidas são de coleções públicas, de fácil acesso aos possíveis interessados. Dos 25 artistas selecionados, pouco mais da metade foi objeto de monografias de especialistas, a despeito da lista que contempla nomes como Debret, Taunay, Victor Meirelles, Pedro Américo, Henrique Bernardelli, Belmiro de Almeida, Rodolpho Amoedo, Almeida Júnior, Eliseu Visconti, Anita Malfatti, Rego Monteiro e Tarsila do Amaral. Ao lado desses nomes imediatamente reconhecíveis, o livro relaciona outros tantos cujas biografias são quase ignoradas, como a do pintor José dos Reis Carvalho, aluno de Debret representado por uma diminuta aquarela com uma flor, pertencente ao Museu D. João VI (Escola de Belas Artes da UFRJ). Aparentemente indigna de figurar ao lado da monumental A Batalha do Avahy (1874/77) de Pedro Américo - quadro histórico com 11 metros de comprimento e 6 de altura -, a florzinha de Reis de Carvalho foi incluída por conta do extraordinário apuro técnico do artista, representante da primeira geração formada pela Academia. Não é a flor que é pobre, argumenta o escritor. ‘É nossa compreensão da arte que ficou empobrecida", diz, defendendo a arte como uma forma de conhecimento do mundo, além de sua função estética e expressiva. De fato, o livro oferece uma aula monumental sobre o Brasil por meio de seus pintores. Quando nem se falava em desmatar a Amazônia, Félix Émile Taunay (1795-1881) já chamava a atenção para os predadores ecológicos que rondavam o Rio de Janeiro, pintando a Vista de um Mato Virgem Que se Está Reduzindo a Carvão (1843), óleo que denuncia a degradação ambiental da capital. A importância do contexto para o entendimento de uma obra de arte também é destacada pelo autor ao analisar o retrato do marinheiro Simão, carvoeiro do vapor Pernambucana que salvou 13 pessoas no naufrágio do navio, em 9 de outubro de 1853. Pintado por José Correia de Lima (1814-1857) no ano da tragédia como homenagem ao herói, hoje esse pequeno retrato passaria despercebido sem a intervenção de Cardoso. Graças a ele, o escândalo provocado pelo óleo A Pompeiana (1876), de João Zeferino da Costa (1840-1915 ), é comparado à histórica tela de Manet, Olympia, que chocou os franceses 12 anos antes. Eles podiam ser artistas de "estatura desigual", mas ambos anteciparam a modernidade em muitos anos. Um na França e outro no Brasil.

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