Livro trata do amor platônico entre padre e rainha sueca

Condenado pela Inquisição de Coimbra por fazer duras críticas à exploração dos escravos, o padre português Antônio Vieira foi privado, em 1667, do direito de pregar em público, além de ser obrigado a passar cinco anos como degredado, em Roma. Um doloroso castigo, pois os sermões transformaram Vieira, nas sábias palavras de Fernando Pessoa, no "imperador da língua portuguesa". A punição foi amenizada, no entanto, pela amizade epistolar que o religioso manteve com Cristina Vasa, ex-rainha da Suécia que, depois de abdicar do trono, se mudara para a Itália, em 1656. A silenciosa mas intensa relação entre eles inspirou a pesquisadora austríaca Gloria Kaiser, que escreveu "O Poder Erótico" (Reler Editora), livro que será lançado nesta quinta no Rio.

AE, Agência Estado

03 de maio de 2012 | 10h13

Baseada nos diários e nas cartas do padre e da ex-monarca, Gloria reconstituiu, de forma delicada mas precisa, uma sofrida e apaixonada relação. "Foi platônica, como bem afirma o historiador Ronaldo Vainfas na introdução de meu livro", comenta a pesquisadora. "Mas também foi muito erótico." Obrigado a se manter em silêncio, Vieira (1608-1697) tornou-se o capelão particular de Cristina, que conseguiu tal liberação diretamente com o papa Clemente IX. Ela já era admiradora de seus sermões, daí a insistência em manter um contato direto.

Na verdade, são dois personagens fascinantes. Antônio Vieira passou 62 anos de sua vida dedicado às atividades religiosa e literária, que dariam ao idioma português o mais esmerado dos tratamentos e o mais aprimorado domínio da técnica. Já Cristina Vasa surpreendeu o mundo ao abdicar do trono sueco em 1654 por motivos incertos - aparentemente foram problemas para governar, como dificuldade na fixação de impostos e más relações diplomáticas com a Polônia. Mas ela era uma mulher muito avançada, pois gostava de vestir trajes masculinos, nunca se casou e teve casos com homens e mulheres.

O relacionamento entre o padre e a ex-rainha se baseou em encontros mais ou menos regulares no Palácio Riario, onde Cristina residiu. Vieira também participou em silêncio dos encontros da Accademia Reale, fundada por ela e centro de discussões intelectuais. Ele escreveu textos lidos pelos cardeais e por Cristina sobre temas diversos, como a ameaça dos turcos sobre a Europa ou críticas à sujeira e ao abandono em que se encontrava Roma.

"Em diálogo com Cristina, ele abriu pouco a pouco a alma", comenta Gloria, observando que o padre se lembrou de admirações passadas para sublimar o desejo. "Quando se referiu à rainha Dona Luisa, Vieira disse: ''No momento em que me deparei com Dona Luisa, fui tomado por enormes forças e desejos - e uma labareda de fogo surgida de algum lugar proibido invadiu a minha vida. Encontrei um mundo que eu ainda não havia pisado.''"

A amizade uniu o religioso e a rainha até 1675, quando o papa Clemente X absolve Vieira das acusações da Inquisição. Não voltaram mais a se falar, apesar da insistência de Cristina. Quando morreu, em 1689, ela foi sepultada na Basílica de São Pedro, entre papas, a pedido de Padre Vieira. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

O PODER ERÓTICO

Livraria Argumento. Rua Dias Ferreira, 417, Leblon, tel. (21) 2239-5294. Quinta, às 20 h (lançamento com debate).

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