ANTHONY AMSTRONG JONES FOTO @LORD SNOWDON CAMERA PRESS GAMMA
ANTHONY AMSTRONG JONES FOTO @LORD SNOWDON CAMERA PRESS GAMMA

Livro traça um retrato íntimo de Christian Dior

Com depoimentos de 70 personalidades, obra revela detalhes de sua rápida e marcante trajetória

Giovana Romani, Maria Rita Alonso , Especial para O Estado de S. Paulo

26 Janeiro 2015 | 03h00

Paris, 12 de fevereiro de 1947, dez e meia da manhã. No salão principal da casa de número 30 da Avenida Montaigne, o burburinho é grande em torno da primeira apresentação de alta-costura da maison do estilista francês Christian Dior. Os editores de moda mais influentes do mundo estão lá. E as grandes damas da sociedade parisiense também. Assim que a primeira modelo pisa na passarela, o tempo parece parar por alguns instantes. Ela veste um terno de cintura marcada e quadril abaulado, combinado com a saia levemente evasê de comprimento pouco abaixo dos joelhos, que deixa seus tornozelos à mostra. Dos bastidores, Dior já pode ouvir os aplausos.

Aos 42 anos, o homem tímido que já experimentara a riqueza e passara por dificuldades financeiras, enfim, triunfa. Mais que isso, revoluciona a moda da época ao criar o visual conhecido como New Look e propor a volta da silhueta ultrafeminina e do glamour sem limites apenas dois anos após o fim do período sombrio da Segunda Guerra Mundial. “O New Look está recebendo a importância da bomba atômica”, comparou, brincando, o poeta Jean Cocteau, amigo do estilista. Daí até 1957, ano de sua morte, Dior construiu um império e os pormenores dessa trajetória são o tema de Monsieur Dior: Once Upon a Time (Monsieur Dior: Era Uma Vez, em tradução livre), de Natasha Fraisier-Cavassoni, recém-lançado pela editora Pointed Leaf Press em parceria com a Maison Dior e ainda inédito no Brasil. “Monsieur Dior conquistou o impossível porque fez um sucesso assombroso, mas não deixou que ele subisse à cabeça”, afirma autora americana, em entrevista exclusiva ao Estado. “Ele sempre foi disciplinado e manteve os pés no chão. Quis traçar um retrato íntimo do estilista, em tom de conto de fadas”.

Para entender a importância de Christian Dior, a escritora ouviu histórias de 70 figuras-chave. Entre elas, a atriz Lauren Bacall, morta em agosto passado, que concedeu à Natasha uma de suas últimas entrevistas. A diva de Hollywood escolheu vestir uma criação da maison na cerimônia do Oscar de 1952, quando seu marido, o ator Humphrey Bogart, ganhou sua primeira e única estatueta. Segundo Lauren, Bogart ficou embasbacado com o preço de uma peça de alta-costura e disse: “O que você está fazendo? Você não pode pagar isso!”. Ela, claro, deu de ombros e ao longo da vida ainda arrematou outros looks de Dior para chamar de seu. Outra cliente famosa, Rita Hayworth, encomendou 12 produções completas depois de ver a primeira coleção da marca. Já Marlene Dietrich exigiu que seu figurino no filme Pavor nos Bastidores, lançado em 1950, fosse assinado pelo estilista. “Sem Dior, sem Dietrich”, escreveu a estrela em um telegrama para Alfred Hitchcock, diretor do longa. Ava Gardner, Jane Russell e Jayne Mansfield também integram a constelação de fãs de Monsieur Dior (como era chamado por todos).

A formalidade do tratamento revela um pouco da personalidade do estilista. Geralmente descrito como gentil e amável, Dior era contido e discreto. Não carregava consigo o carisma de alguns de seus colegas, mas tampouco tinha o temperamento difícil de outros gênios contemporâneos, como Gabrielle Chanel e Cristóbal Balenciaga. “Monsieur Dior era mente aberta e leal”, analisa a autora, que não encontrou voz dissonante entre as dezenas de ex-funcionários do estilista, entre vendedores, costureiras e modelos. Apesar de amável, o criador era extremamente exigente. Pierre Cardin, chefe do ateliê da maison em 1947, lembra-se de passar três dias trabalhando ininterruptamente, sem voltar para casa, antes da apresentação da coleção. 

Cardin entrega também os dois maiores vícios de Dior: a compulsão por comida e a supersticiosidade. “Ele devorava sacos de doces durante as provas de roupa e não fazia nada sem consultar Madame Delahaye, sua clarividente”, conta Natasha. Homossexual não-assumido, o estilista mantinha relações discretas com homens mais jovens e sofria por estar fora de forma. No trabalho, vestia um avental branco e não descansava enquanto suas criações não estivessem perfeitas. Seu senso estético vinha de berço. 

Galeria. Nascido da Normadia, membro de uma família abastada do ramo de fertilizantes, Dior cresceu entre partidas de críquete, bailes e festas beneficentes. Com talento nato para criar, o jovem Christian desejava estudar na Escola de Belas Artes, mas, impedido pelo pai, acabou inscrito no curso de ciências políticas. Em Paris, pouco frequentava as aulas. Passava as tardes no bar ao lado de artistas, músicos e poetas. Financiado pelo pai, abriu uma galeria de arte em meados dos anos 1920, mas precisou fechá-la em 1931, quando a família Dior perdeu toda a sua fortuna após a crise de 1929. Ele, então, começou do zero e passou a desenhar croquis de vestidos para revistas de moda e logo conseguiu um trabalho na empresa de Lucien Lelong, o lider da câmara de comércio francesa, que o introduziu no mundo dos negócios. 

Isso, até 1947, quando conheceu o milionário Marcel Boussac e conseguiu o financiamento necessário para lançar sua grife. “Acho que quando há lucidez e disciplina, o fracasso vem para somar, pois você sabe quais são suas falhas e pode enfrentá-las”, diz a autora do livro. Foi o que fez Dior ao cuidar da parte criativa e confiar as finanças ao administrador Jacques Rouet. Juntos, estabeleceram raízes sólidas para a marca, abriram boutiques mundo afora, licenciaram produtos e fizeram da alta-costura um luxo acessível. “Apesar da aparência clássica, Monsieur Dior era um visionário”, continua Natasha. “Ele tornou sua grife global antes de qualquer outra em apenas dez anos”. 

Ao longo de sua década de ouro, Dior viveu como rei. Adorado por sua corte de nobres damas da sociedade francesa e do mundo, transformou mulheres em princesas. Após sua morte prematura, aos 52 anos, foi substituído à altura pelo pupilo Yves Saint Laurent, e, posteriormente, por Marc Bohan, Gianfranco Ferré e John Galliano. Atualmente, a maison vai bem, obrigado, sob o comando de Raf Simons.

Dior sofreu um ataque cardíaco durante uma temporada no spa de Montecatini, na região da Toscana, para onde viajou contrariando de forma inédita o conselho de sua guru, Madame Delahaye. Morreu em 24 de outubro de 1957, às dez e meia da noite. Exatamente uma década depois de mudar para sempre a história da moda.

MONSIEUR DIOR: ONCE UPON A TIME

Autora: Natasha Fraser-Cavassoni 

Editora: Pointed Leaf Press/ Maison Dior (252 págs., US$ 53,28)



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