Livro traça painel da literatura feminina no Brasil

Apresentar o olhar feminino na literatura brasileira do século 20 é a proposta das pesquisadoras Lúcia Helena Vianna e Márcia Lígia Guidin em Contos de Escritoras Brasileiras (Martins Fontes, 388 págs., R$ 42,50). As organizadoras reuniram 32 contos, por meio dos quais apontam mudanças no percurso das mulheres escritoras do século passado, tanto no que diz respeito às técnicas, como às mudanças nos costumes. Elas sugerem uma leitura feminina, não feminista dos contos.Lúcia Helena é doutora em Letras, professora universitária e ganhadora do Prêmio Casa de Las Américas de 1996 pelo livro Cenas de Amor e Morte na Ficção Brasileira. Márcia Lígia também é professora universitária e lançou recentemente o livro Armário de Vidro, Velhice em Machado de Assis. Amigas desde o período da pós-graduação, ambas pesquisavam a literatura feminina - objeto de estudo seguido até hoje por Lúcia Helena - e decidiram apresentar aos leitores a variedade e a riqueza da escrita feminina. Durante um ano as professoras universitárias percorreram livrarias e sebos atrás dos contos."A maior parte dos textos já foi publicada, no entanto muitos livros estão esgotados como a antologia Contos Femininos, lançada em 1967, por Raimundo Magalhães Jr. Mesmo assim, conseguimos reunir cerca de 200 textos e passamos um ano lendo e selecionando as obras," lembra Márcia Lígia. No livro, pequenas biografias retiradas do Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras, de Nelly Novaes Coelho, introduzem cada escritora. Para fazer a seleção, as pesquisadoras se basearam na qualidade dos textos, na importância histórica das escritoras, como Rachel de Queiroz, Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles, referências na literatura e influência por gerações, e no resgate de autoras importantes e esquecidas. A opção pelo gênero conto se deu pela facilidade de observar a construção da escrita feminina."O conto possui uma narrativa e uma estrutura significativa - curto, dá fôlego ao texto e permite uma melhor análise do processo de transformação das mulheres e o modo de escrever no decorrer do século 20." Vale destacar, principalmente, as mudanças temáticas no decorrer do período. Temas ligados à família, ao lar ou lembranças da mãe, por exemplo, podem ser encontrados em trabalhos mais antigos como de Carmen Dolores, com as mudanças sociais as discussões se encaminham para o amor e o adultério, nas obras de Olga Savary e Maria Caprioli. Lygia Fagundes Telles se destaca por um humor grotesco e situações insólitas e Pagu por seus temas policiais. Já Marilene Felinto e Flávia Savary abordam o erotismo e a violência sexual. O regionalismo também está presente nas obras de Vilma Guimarães Rosa e Adélia Prado. Como afirma Márcia Lígia, essa produção ultrapassa a questão de gênero.

Agencia Estado,

19 de janeiro de 2004 | 11h27

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