Livro sobre o preconceito americano pós-atentados é lançado no Brasil

Livro sobre o preconceito americano pós-atentados é lançado no Brasil

Autor da ficção 'Meu Irmão', paquistanês H. M. Naqvi conversa com o Estadão sobre a obra

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2012 | 03h09

Os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos alteraram drasticamente as relações entre nativos e imigrantes naquele país, que se tornaram mais agressivas e desconfiadas. O acontecimento inspirou uma série de livros romanceados, entre eles, Meu Irmão, lançamento da editora Rocco e escrito por H. M. Naqvi que, embora nascido em Londres, é cidadão paquistanês.

Não se trata de mais uma obra sobre os efeitos de atos tão violentos: mais que as situações, Naqvi registra um linguajar que se tornou próprio de emigrantes, unindo construções da fala original com a do país adotado, criando uma sonoridade própria. Meu Irmão acompanha Chuck, um jovem paquistanês de 17 anos que estuda Literatura Inglesa em Nova York. Analista financeiro em Wall Street, ele leva uma boa vida ao lado de amigos muçulmanos, frequentando baladas.

Tudo muda com a queda das torres gêmeas: rapidamente, Chuck e seus colegas passam a ser observados por um ódio exacerbado, a ponto de ele perder o emprego, o que o obriga a trabalhar como taxista. E, durante uma viagem a Connecticut em busca de um outro amigo, Chuck acaba preso e violentamente interrogado.

"Não se trata de um livro sombrio - na verdade, é fundamentalmente uma comédia de erros", disse Naqvi ao Estado, em entrevista por e-mail. "Vejo como um romance de formação, na tradição de Huckleberry Finn ou O Apanhador no Campo de Centeio. A trama apresenta situações mais inusitadas que seus personagens, que bebem, dançam e se entregam à droga no banheiro. Não há dúvida de que o romance é político, pois faz parte da própria história, mas que melhor maneira de lidar com questões profundas que a comédia?"

O grande trunfo do escritor paquistanês foi criar um universo que une cultura hip hop com referências eruditas, resultando uma aguda observação sobre a América pós-atentados. "Quando mais jovem, fui um poeta muçulmano e, como talvez você saiba, artistas desse naipe se obrigam a se fazer ouvir. Daí, talvez, a origem de uma prosa tão evidentemente poética", observa. "A escrita de um romance não é como a do rádio ou televisão. Deve-se significativamente se envolver com uma obra particular. Embora o romance possa ser salpicado com algumas palavras polissílabas, também não fui cauteloso ao empregar palavras de quatro letras, como 'shit' e 'fuck'."

Naqvi garante que o personagem Chuck é apenas "14% autobiográfico", mas insiste que se coloca estrategicamente entre Naipaul e Nabokov quando o assunto é literatura política. "Naipaul não celebra a união entre política e prosa", afirma. "Como um homem que sente a falta das próprias tradições, alguém admirado com a grandeza da Grã-Bretanha, Naipaul é talvez patologicamente político. Por outro lado, Nabokov, um homem que fugiu da Rússia czarista apenas com as roupas do corpo e nunca voltou, parece ser quase apolítico. Ele parece satisfeito ao costurar frases ricas e ressonantes."

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