Livro sobre guerrilha do Araguaia é relançado

Será lançada hoje em São Paulo a nova edição do livro Guerra de Guerrilhas no Brasil - A Saga do Araguaia, do jornalista Fernando Portela. Editado em livro pela primeira vez em 1979, o trabalho de Portela foi publicado antes no Jornal da Tarde, em uma série de reportagens feitas na região do Araguaia em 78, três anos depois do fim da guerrilha. Esta nova edição é ampliada com uma entrevista recente do deputado federal José Genoíno, um dos poucos sobreviventes da guerrilha.A história da guerrilha do Araguaia ainda não é inteiramente conhecida. Portela diz que o Exército brasileiro não permite a consulta a muitos documentos importantes para o pleno esclarecimento dos fatos. Mas a publicação das primeiras matérias sobre a guerrilha, em 79, rendeu a Portela uma série de documentos e depoimentos reveladores, além de algumas ameaças de morte. "Recebi um relatório do projeto Rondon, do governo federal, que tornava evidente que houvera uma guerrilha", diz o jornalista. "Até então, dizia-se que era uma invenção".Apenas depois das reportagens de Portela é que a existência de quase sete anos de guerrilha numa região rural no interior do Pará se consolidou na história do País. E, na opinião do jornalista, os fatos mostram que o episódio foi de grande vulto. "Eram 63 pessoas do Partido Comunista do Brasil, entre estudantes universitários, operários, profissionais liberais, que rechaçaram 10 mil soldados em uma primeira campanha e mais 10 mil numa segunda", conta. Na terceira investida, com o batalhão de pára-quedistas, é que os guerrilheiros foram derrotados. "Mas porque a operação usou inteligência".Portela caracteriza o pequeno grupo de guerrilheiros como obstinados, mas ressalta que eles conseguiram formar um verdadeiro exército. Exercícios duros na selva amazônica, disciplina rígida, hierarquia e estratégias militares complexas faziam parte do cotidiano da guerrilha. "Os militares aprenderam a respeitar os guerrilheiros porque os viam como militares também", diz Portela.Curiosamente, Portela recebeu mais informações sobre a guerrilha do Araguaia de oficiais do Exército brasileiro. Antes de viajar ao Pará para recolher dados sobre a guerrilha, ele fizera uma reportagem sobre as fronteiras do Brasil de norte a sul, em parceria com o jornalista Claudio Bojunga. Portela conheceu, nesta época, militares que estavam de castigo na região de fronteira por terem-se recusado a torturar guerrilheiros do Araguaia. Assim nasceu sua série de reportagens sobre a guerrilha.O saldo da experiência histórica da guerrilha é, para Portela, um exemplo de generosidade e doação pessoal. "Serviu para mostrar que era possível resistir", afirma. Ainda falta muito a ser contado. O jornalista cita, como exemplo, a recusa do Exército em informar quantas foram suas baixas durante o conflito. "Esses arquivos precisam ser abertos", diz.Guerra de Guerrilhas no Brasil - A Saga do Araguaia - Fernando Portela. Editora Terceiro Nome, 321 pp., R$ 32. Lançamento hoje na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. Avenida Paulista, 2073, 18h30.

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