Livro sem lacunas de Cícero Dias

Cícero Dias não deu autógrafos nem entrevistas no lançamento do livro Cícero Dias - Uma Vida pela Pintura, na quinta-feira à noite, nos jardins do palácio do Campo das Princesas, no Recife. O cansaço que ele demonstrava sentado em sua cadeira de rodas e que o fez ir embora mais cedo do que os convidados, não empanou, porém, a satisfação com a obra, que considerou a melhor e mais completa já feita sobre ele, um dos últimos representantes do modernismo brasileiro ainda vivo. "O livro não deixa lacunas", afirmou ele à reportagem.Com o lançamento, Cícero, que completa 95 anos no dia 5, realizou o desejo de ter um livro com acesso ao grande público, já que os outros dois trabalhos realizados sobre sua vida e trajetória artística restringiram-se aos clientes das empresas que o patrocinaram, sem chegar às livrarias.O livro é primoroso e chega ao mercado num momento adequado, quando o Brasil comemora os 80 anos da Semana de Arte Moderna, com exposições e balanços da importância do movimento modernista na arte e cultura do País. Com texto em português e inglês, suas 352 páginas são recheadas com 220 reproduções de seus trabalhos e fotos do pintor ao lado de famosos vanguardistas contemporâneos seus - tanto no Brasil, como em Paris, onde vive desde 1937.Cícero foi próximo de Di Cavalcanti, Lasar Segall, Murilo Mendes e Graça Aranha - para citar só alguns - da mesma forma que compartilhou experiências, amizade e idéias com Pablo Picasso (padrinho da sua única filha, Sylvia) e os escritores André Breton e Paul Eluard.Patrocinado pela Telefônica, Cícero Dias - Uma Vida pela Pintura teve como curador e editor o galerista Valdir Simões de Assis Filho e texto do jornalista pernambucano Mário Hélio. Como o artista tem uma obra acabada, fechada, Simões buscou salientar os trabalhos pontuais de cada um dos períodos da sua vida artística, fazendo uma exaustiva pesquisa em museus, fundações e entidades dentro e fora do Brasil.Mário Hélio, editor da revista Continente Multicultural, acompanhou o percurso trilhado pelo artista, desde sua infância como menino de engenho na zona da mata pernambucana, contextualizando suas vivências e influências com o que ocorria no mundo das artes e da cultura em Pernambuco, no Brasil e na Europa. Ele avalia cada uma das fases da sua pintura que tem início com as aquarelas da década de 20, passam pelo primitivismo, abstracionismo, lirismo, geometrismo e finda com a fusão do lirismo com o geometrismo.Frisa o seu pioneirismo na pintura mural abstrata na América Latina. E aborda aspectos pessoais do pintor, a exemplo da sua luta contra as ditaduras. Cícero foi para Paris rejeitando o Estado Novo e na Europa esteve ao lado dos que resistiam ao nazi-fascismo."A trajetória de oito décadas de pintura de Cícero Dias é a mais extraodinária e coerente com toda a arte moderna do Brasil e, sobretudo, singular, personalíssima", diz Mário Hélio no livro. "Nenhum dos pintores modernistas trilhou caminho mais pessoal do que ele." Para o jornalista, Cícero Dias nasceu pintor e sua pintura nasceu moderna. Avesso a rótulos, Cícero Dias não aceita ser chamado de modernista. "A palavra moderno não quer dizer coisa nenhuma", reafirmou ele, ontem.Josué Montello, que assina o prefácio do livro dando a Cícero Dias o título de "mestre", destaca a genialidade e a característica de renovação presentes em toda a sua obra. Ao seu ver, a marca do artista é a ânsia constante de renovar-se sem nunca deixar de ser essencialmente ele mesmo.Em termos mercadológicos, Valdir Simões Filho afirmou que Cícero Dias ainda é um nome em ascensão, devendo vir a ser muito mais valorizado, pela importância e internacionalização da sua obra. Os maiores preços conseguidos por quadros de Cícero Dias estão entre os U$ 150 mil e US$ 200 mil. Um Di Cavalcanti chega a US$ 1 milhão.

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